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Inquietações

Inquietações

A lição da roseira


Liliana Rodrigues

18.05.20

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No céu, o sol começa a perder a sua força. Uma roseira, num ponto alto, balança as suas folhas ao sabor do vento com o mar como pano de fundo, como se estivesse a preparar-se para o espetáculo do pôr do sol. Os seus lindos botões dançam ao som do chilrear dos pássaros. As suas flores emanam, das bailarinas pétalas, um aroma doce e apaziguador. O tempo parece abrandar: pára.
Por breves momentos perco-me a olhar a roseira. Sou assaltada por pensamentos, preocupações e planeamentos para o dia que aí vem. Na minha mente, uma tempestade violenta rouba o prazer do que está diante dos meus olhos. A minha mente agita-se freneticamente. O tempo volta a passar rápido demais.
A roseira permanece serenamente a contemplar o sol cada vez mais próximo do mar. As suas flores ganham uma nova beleza com a diminuição da intensidade da luz. Páro para observar e, desta vez, observo.
Os pensamentos voltam em força, mas ignoro-os procurando pormenores no cenário á minha frente. Aproximo-me da roseira e sento-me no chão.
Os seus caules são cravejados de espinhos, cerrados e quase impenetráveis, dos quais emergem folhas, umas mais viçosas que outras. Delicadamente protegidas pelas sépalas, as coloridas e aveludadas pétalas sobressaem dando uma beleza inconfundível à planta espinhosa.
Ouvi muitas vezes dizer que as mais belas rosas têm os seus espinhos. Talvez a vida também assim seja. Talvez o segredo para uma vida plena e realizada esteja cheia de adversidades ultrapassadas. Talvez a felicidade e a realização pessoal esteja para lá dos obstáculos e dos problemas. Talvez o segredo seja aceitar as dificuldades e superá-las em vez de as tentar eliminar.
Reflecti durante uns minutos sobre o paralelismo que tinha acabado de fazer e na coerência do que estava a pensar. Olhei a roseira.
Havia na planta flores já velhas e quase sem pétalas. Algumas folhas estavam secas ou comidas dos caracóis. Os botões não tinham todos a mesma beleza. A planta não era harmoniosa como inicialmente parecia. Detive-me nos detalhes. Observei pormenorizadamente a roseira. Nada me escapou.
Tudo me escapou. O pôr do sol tinha terminado. Perdi demasiado tempo a olhar para os detalhes e deixei escapar a perfeição do momento no seu todo. A minha atenção ficou perdida com as características da roseira e o grande espetáculo passou-me ao lado.
A minha atenção prendeu-se nos detalhes e isso impediu-me de desfrutar, mas à roseira não. A ela pouco importava com que roupa eu estava vestida, se tinha rugas ou borbulhas na cara, se estava penteada ou se exibia um penteado novo. Para ela só importava estar ali, a viver a sua vida e a desfrutar da vista.

 

Quando te voltar a abraçar


Liliana Rodrigues

04.05.20

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Os teus braços envolvem-me e deixo-me adormecer no teu calor. Estou com frio. Estou assustada. Ouço barulho á minha volta, muito barulho, que me deixa inquieta. Ouço a tua voz, ouço o bater do teu coração e mais nada importa.

Chego a casa, meio a choramingar, corro para o quarto. Segues-me. Encontras-me deitada sobre a cama a chorar. Não quero falar sobre o que aconteceu. Respeitas e abraças-me com amor. Começas a colar, delicada e pacientemente, os pedacinhos do meu coração partido. Descanso ao som do bater do teu coração.

Com uma quinzena de anos já me julgo gente graúda. Não quero mais ser tratada como uma criança. Exijo respeito. Exijo ser ouvida. Exijo viver a minha vida. Exijo. Exijo. Exijo. Sou um mundo de opiniões, reivindicações e de projectos. A medo vais abrindo as asas para que eu possa voar. Afasto-me uns metros e caio, mas tu não me deixas tocar no chão. Aconchegas-me nas tuas asas: descanso com o som do teu coração.

Diz-se, por aí, que me tornei adulta e pronta para me fazer à vida. Olho para o canudo. Olho para ti. Tenho que tomar uma decisão e lutar pela vida. Vou para longe cheia de certezas e tu ficas cheia de inseguranças. Os primeiros anos até parecem fáceis. Diziam que a vida era dura, mas que exagerados. Espalho-me ao comprido e dói. Dói tanto que fico despedaçada; estilhaçada. Choras à distância nos entretantos em que me tentas consolar. Não tenho o calor do teu abraço nem o som do teu coração.

Aprendo a colar o coração estilhaçado sozinha, mas falta uma ou duas peças. Não tenho dúvidas que farias muito melhor. Sempre tiveste a capacidade de fazer tudo perfeito. És perfeita. 

Encontro  a pessoa que completa, com as peças que faltavam, o meu coração. Nasce um novo ser. Estás mais feliz do que uma criança no Natal. O teu coração bate mais forte que nunca. Segura-la nos teus braços e o som familiar do teu coração acalma-a.

Não nos abraçamos tantas vezes como queremos. Não nos podemos abraçar como queremos. Mas quando nos abraçamos o mundo pára para nos ver a sincronizar corações. Pára para ver o espaço temporal a ser relativizado: encurtado, suprimido. Pára para ver que não há tempo nem distância que diminuam o nosso amor.

Quando te voltar a abraçar vou-me aconchegar no teu calor e sossegar com o bater do teu coração. Vou dizer-te o que já sabes, mas que nunca é demais dizer. Amo-te, mãe.

Reflexo no vidro


Liliana Rodrigues

23.04.20

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(imagem retirada do Google)

Olho a imagem que o pedaço de vidro me reflete. Não consigo compreender o que está diante de mim. Como é possível tanta dor e tanta angustia? Como? Como é possível existir tanta gente que sofre? Como é possível alguém aguentar? Como é que se sobrevive ao que se vive? Mas não há Deus justo neste mundo?
Fecho os olhos e sacudo a cabeça, como se afastasse estes pensamentos, mas é em vão. Sinto um sabor amargo, a boca fica seca e procuro um pouco de água para beber. Nem uma única gota de água disponível. Engulo em seco a minha raiva; a minha frustração.
O nó na garganta incomoda e dificulta a respiração. Levo a mão ao pescoço como que a tentar aliviar a obstrução que se intensifica. Tento controlar a respiração antes que desmaie. Olho de novo para o vidro. Observo.
Vejo a imagem de três crianças a descer a rua. Vêm a conversar entre si, duas delas abrandam o passo e, quando a terceira fica à sua frente, puxam a mochila. A criança desequilibra-se e cai no chão. As duas crianças riem e riem e não a ajudam a levantar. A imagem desvanece.
A sala está cheia de pessoas que aguardam a reunião. Duas delas cochicham entre si. Olham com desdém para alguém no lugar da frente. O director chega e cumprimenta essa pessoa. As outras duas tecem comentários injuriosos e invejosos, espalhando boatos a quem está à sua volta. A imagem é sucedida por outra.
Alguém trabalha afincadamente num projecto extremamente importante para a recuperação da empresa. Trabalha tanto que não tem tempo para a família nem para si próprio. É um projecto inovador, ambicioso e que irá salvar a empresa. Pede a um colega que dê uma vista de olhos antes de o apresentar à direcção. Três dias depois o colega é promovido com a apresentação do seu projecto. A imagem é substituída pelo meu reflexo.
O que se faz quando se é confrontado com a realidade? Com a triste realidade humana? Qual é o gosto? A que sabe?
Nascemos seres de luz e com o tempo vamos deixando de brilhar. Somos seres livres desde a nascença e com o tempo tornamo-nos escravos das nossas escolhas, das nossas atitudes, de nós mesmos. Nascemos a saber amar e com o tempo desaprendemos.
Como é possível tanta dor e angustia? Como é possível mudarmos tanto a nossa natureza? Como é possível procurarmos a culpa fora de nós, quando ela está dentro? Como é possível sermos tão cegos?
A imagem que vejo é mais do que o meu reflexo. É a resposta mais difícil às minhas perguntas mais fáceis.

Fundo preto


Liliana Rodrigues

15.04.20

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Numa qualquer noite de abril a água batia violentamente contra as janelas, o vento uivava continuamente e os relâmpagos intimidavam o céu. Ela, sentada à mesa, preparava-se para colorir uma imagem. Espalhou os marcadores e os lápis de cera. Olhou as cores. Olhou o desenho. Não sabia por onde começar. Não sabia que cores escolher.
O seu rosto estava fechado, indiferente ao tempo que fazia lá fora. Indiferente ao que acontecia à sua beira: ensimesmada. Uma tempestade de emoções acontecia dentro de si sem que nada transparecesse. Uma tempestade impiedosa que a fustigava violentamente. Lutava para sobreviver. Pegou no marcador amarelo e começou a pintar.
Aos poucos o desenho foi-se enchendo de cor. Cada vez estava mais agradável à vista. Era uma imagem bonita, cheia de cor e de vida: feliz. Ela, continuava compenetrada no traço, na perfeição da orientação e harmonia da cor.
O seu rosto colava-se ao desenho e a sua alma afastava-se dele. Lá fora tinha parado de chover e as nuvens deixavam as estrelas espreitar. Escolhia as cores e pintava minuciosamente ao som dos seus trovões. Queria gritar. Queria atirar tudo no chão. Queria chorar. Queria fugir dali. Escolheu outra cor e continuou.
Os pensamentos rasgavam violentamente o seu céu. As emoções escorriam e batiam desgovernadamente contra si. O som da colisão contra o seu corpo era ensurdecedor e simultaneamente inaudível. Pintava, só, numa noite gelada de abril.
Que bonito estava o desenho, digno de uma qualquer galeria de arte. O seu rosto não se abriu uma única vez; inexpressivo. Indiferente. Observou-o. Faltava o toque final. Faltava pôr a sua assinatura.
O tempo, debruçada sobre a mesa, começava a massacrar as costas, mas essa era a menor das suas dores. O seu interior travava uma luta injusta contra si próprio. O seu interior despedaçava-se à medida que coloria. A dor física não dói mais do que a dor da alma. A dor física acalma-se com medicação a dor de alma não. Não podia tomar o analgésico para a sua dor; não estava acessível. Rendeu-se à dor.
Assinou da única forma que sabia e podia: com a alma. Uma aparente harmonia de cores num fundo preto.

Palavras em tempo de covid19


Liliana Rodrigues

11.04.20

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(Imagem retirada do Google)

Abomino e desprezo palavras desprovidas de conteúdo. Palavras insidiosas que são ditas sem alma. Vamos ficar bem, diz-se por aí. Quem é que vai ficar bem? Quem é que fica bem depois de perdas irrecuperáveis? Quem fica igual depois de tudo isto passar?
Quando o covid acabar. Quando acabar? Será que acaba? O que acontece depois? Como seremos depois? Estas são as perguntas que devem ser feitas e para as quais precisamos de respostas.
As palavras devem agora, mais do que nunca, ser empregues da maneira certa: com alma, com garra, com intensão, com propósito. Usemos as palavras para expressar verdadeiramente as emoções, sem medos ou contensões. Com a ousadia de quem não tem nada a perder. Com a pujança de um adolescente. Com a simplicidade de uma criança.
Quando é que nos deixámos domesticar pela adultice? Quando é que permitimos as complicações na nossa vida? Que estupidez.
Não vamos ficar todos bem, não. Temos que ficar todos bem. Pode até soar igual, mas não o é. As palavras têm força e somos nós que a damos. Vamos dar as palavras a força que elas merecem. Vamos usá-las com intenção.
Querem encontrar a força necessária para enfrentar esta guerra? Não usem palavras vazias. Usem as palavras que vêm da alma. Usem-nas para vos dar um rumo nestes tempos de isolamento social. Usem-nas para expressar tudo o que está dentro de vós; até à loucura. Sem meias palavras. Sem merdices. Sem optimismos despidos de ser.
Temos todos que ficar bem para quando acabar. Temos que ficar bem porque ainda há muito para amar. Ainda há muito por sonhar. Ainda há muito por conquistar. Ainda há muitas aventuras por correr. Ainda há experiências por viver. Ainda há lições por ensinar e aprender. Ainda há oportunidades por agarrar.
Temos que ficar bem. Porque quando acabar ainda há vida para viver.

Graças ao vírus


Liliana Rodrigues

04.04.20

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“se a libertação não está em mim, não está para mim, em parte alguma.” (Fernando Pessoa)
Neste blog são poucos os textos pessoais que escrevi, mas é chegado o tempo.
Nos últimos dias tenho feito uma viagem às profundezas da mente; do meu ser. A liberdade de poder visitar-me, saindo de mim e voltando, só foi possível, ironia das ironias, graças à pandemia. E é curioso como algo tão destrutivo pode, ao mesmo tempo, ser tão construtivo.
O quotidiano de uma vida agitada faz tanto ruído em nós que deixamos de ouvir. É com o abrandar da vida que o ruído diminui e damos de caras com nós próprios. As perguntas começam a tomar conta da cabeça e fica-se inquieto. Existem dois caminhos a seguir ou desvia-se a atenção para outro lado ou rende-se à inquietação e embarca-se na viagem.
Dou por mim, imensas vezes, talvez vezes demais, a pensar em qual o sentido. Qual o sentido para tudo isto? Qual o sentido da vida? A cabeça dói de tanto procurar as respostas: lateja. Quando tento chegar a uma conclusão surgem mais perguntas. Quem sou? Que faço aqui? Quem quero ser? Para onde quero ir? A angustia materializa-se na dor física de um corpo doente da ausência de si. Treme.
Baixo os braços em sinal de rendição aquilo que não consigo encontrar: respostas. As lágrimas caem sem que lhes tenha dado autorização. Mas o mais profundo do ser não precisa de autorizações nem ordens especiais. Precisa de silêncio, das distrações mundanas, e de rendição do eu.
É quando me rendo e anulo o meu eu que me torno mais eu. É na redição que se encontram as respostas que sempre procurámos. É na rendição que me curo de mim mesma. Renuncio para encontrar a liberdade.
Renuncio ao mundo que me consome e desgasta. Renuncio à escravidão que impera. Renuncio ao superficial e efémero. Renuncio às ilusões e mentiras contadas e difundidas. Renuncio ao sofrimento e à dor. Renuncio ao padronizado. Renuncio à imitação barata. Tal como dizia Pessoa: “A renúncia é libertação.”
Encontrei a liberdade de ser e para ser. Não me escondo mais, atrás de eufemismos e das palavras, camuflando o que sou. Sim, estou a sofrer com toda esta situação. Sim, estou a sofrer com o distanciamento de quem mais amo nesta vida e, quem sabe, nas próximas vidas. Sim, choro compulsivamente quando me dói mais. Sim, sei qual é a minha missão, o que tenho que fazer pelos outros e para proteger quem amo. Sim, sou humana. Sim, sou livre.
Observo-me à distância de quem narra uma história. Compreendo-me. Renuncio ao que achava. Liberto-me do que me agrilhoava. Misturo-me no amor que habita em mim. Conheço-me agora.

Um amor maior


Liliana Rodrigues

27.03.20

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Fizeste anos e mais uma vez não pude estar contigo. Mais uma vez, tudo se resumiu a um telefonema e uma videochamada. Desta vez nem um postal, nem uma carta e nem um presente foram enviados pelo correio. Todos os planos que tinha feito escorregaram por entre os dedos para cair no abismo da incerteza. E dói.

Sempre tivemos os atritos e mal-entendidos, por sermos tão iguais, mas existe amor; um amor maior. Um amor que nem a distância, nem o tempo e muito menos um sacana de um vírus pode mudar. Um amor que não precisa de palavras para ser descrito. Um amor em que basta um olhar cúmplice para compreender o que as palavras são incapazes de traduzir. Um amor de pai e filha. E dói.

Não estivemos sempre assim tão próximos. Houve épocas em que a distância era maior do que esta que nos separa hoje. Houve ocasiões que não compreendi. Peço desculpa, as mais sinceras desculpas, por não ter compreendido que te sacrificavas para me dar tudo o que não tiveste. Peço desculpa por não entender que só lutavas para que a tua família tivesse sempre o melhor. Foram muitas as lutas que travaste, e que ainda travas, mas conseguiste. Cumpriste a tua missão na perfeição e nada nos faltou; nem o amor. O amor sempre esteve lá em tudo o que fazias. E dói.

Cresci e aprendi a ter a tua persistência e força. Aprendi contigo que a vida pode ser colorida, mas também ter pretos e brancos. Aprendi que o mais importante é valorizar o que temos e continuar a lutar pelos sonhos. Aprendi que amar é cuidar, proteger e lutar. E dói.

Dói estar neste impasse em que se vive. Dói não saber quando nos podemos voltar a abraçar. Dói e pronto.

A incerteza é a lâmina afiada que trespassa o coração. A angustia marca o ritmo em que se vive como um metrónomo. Asfixio na força que preciso de ter. Sufoco nas lágrimas que não consigo chorar. O medo vai corroendo como um ácido. Dói.

Dizes-me que vai ficar tudo bem e eu acredito. Afinal és o meu super-herói. Vemo-nos muito em breve.  

Amo-te muito Pai. 

 

Um dia sonhei...


Liliana Rodrigues

19.03.20

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Em cima do sofá, com um lençol preso ao pescoço, fazia pose heróica. Abanava a minha capa e tranquilizava as pessoas. Ia protegê-las a todo o custo. Era uma promessa. Um compromisso de honra.

- Nada temam. Estou aqui para vos salvar.

Num salto retirava a capa e desferia socos e pontapés lutando contra um grande vilão. Lutava com todas as minhas forças. Desenhava um círculo no ar e atirava-o contra o inimigo. O vilão ripostava. Era atingida. Caía. Levantava-me novamente e permanecia na luta. Mais um golpe e outro. Ameaçava fazer mal à minha família, mas isso só me dava mais força para lutar. Lançava-me contra ele com toda a força e raiva e caía novamente. Imóvel no chão encontrava força nas pessoas que contavam comigo. Vencia-o por fim. 

Hoje, muitos anos depois, dos sonhos inocentes de criança, não sou heroína, não tenho superpoderes e nem combato vilões. Não tenho capa nem um fato especial. Hoje visto uma túnica e umas calças brancas. Hoje não dou socos ou pontapés, mas luto para melhorar a vida das pessoas, para proteger e cuidar delas. Hoje, de certa forma, vivo o meu sonho.

Escondo-me atrás de jogos de palavras para combater os inimigos dentro de mim; os ziliões de pensamentos que me assaltam a mente. E luto. Continuo a lutar. Amanhã vou sair para a minha maior batalha; pensada ou vivida. Amanhã visto a minha roupa de mortal para lutar contra um novo inimigo que ameaça a minha família. Vou com a incerteza da duração da luta ou do regresso. Apresento-me ao serviço do próximo. Saio com o coração nas mãos, deixando para trás marido e filha. E, ainda assim, vou vivendo o sonho ingénuo de menina. Vou vivendo o sonho de salvar pessoas. Amanhã vou ser a melhor enfermeira que puder.   

(imagem retirada do google)

Covid 19


Liliana Rodrigues

16.03.20

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(imagem retirada do Google)

A vida dá voltas inesperadas e, de um momento para o outro, o que tínhamos como garantido foge-nos por entre os dedos. Há duas semanas vivia tranquila e a fazer planos para o futuro. Fazia contactos e preparava o lançamento do meu segundo livro. Hoje o único plano que faço é não fazer planos.
Este foi o fim de semana mais longo da minha vida. E não, não foi por ter começado a meio da semana. Na verdade o meu fim de semana teve dois dias; como qualquer fim de semana normal. Fui bombardeada de informação, normas, diretrizes e desinformações de todos os lados. Foi cansativo. Foi stressante. Foi esgotante. Sentia-me cansada e com dores no corpo. Dormi, dormi o máximo que pude na esperança de acordar numa realidade diferente. Mas não é assim que funciona, pois não?
É impressionante como um microorganismo tão pequeno pode virar um planeta inteiro de pernas para o ar. De um momento para o outro temos que viver em função de um vírus; de evitá-lo custe o que custar. De um momento para o outro temos que viver distantes debaixo do mesmo teto. De um momento para o outro temos que pensar tanto nos outro como em nós próprios. De um momento para o outro tudo mudou.
Perspetiva-se um longo caminho pela frente e temos de estar preparados para esta corrida. É bom que tenhamos em mente que será uma maratona e não um sprint. Só vence quem for resistente, resiliente e se souber adaptar. Talvez essa seja a solução: a adaptabilidade. O nosso adversário sabe, sem sombra de dúvida, adaptar-se. Seremos nós capazes de nos adaptar? De nos reinventar?
Vivemos uma guerra em que pouco sabemos sobre o inimigo, mas sabemos quem queremos e devemos proteger. Como em qualquer guerra é a união, a cooperação e a solidariedade que nos fará vencer. Mas será que estamos prontos para olhar para lá do nosso umbigo? Será que estamos prontos a ultrapassar as nossas diferenças? Será que estamos prontos a ajudar sem esperar nada em troca?
Estamos todos com medo; cada um manifesta-o à sua maneira. Todos nós estamos sob stress. Ė preciso manter a calma e a razoabilidade. É preciso bom senso para não desperdiçar recursos, que nesta altura são essenciais, e não ter a falsa sensação de segurança. Há profissionais de saúde disponíveis para esclarecer.
Todos somos importantes nesta guerra. Não soldados de primeira e soldados de segunda. Somos todos soldados nesta trincheira. Contamos com os que não estão na linha de fogo para nos ajudar. Não corram riscos desnecessários. Evitem aglomerados de pessoas. Respeitem as regras de restrição impostas pelos estabelecimentos comerciais. Lavem frequentemente as mãos. Só saiam quando estritamente necessário. Mantenham a mente ocupada e inventem formas de ocupar o tempo. Lembrem-se que é uma maratona.
É preciso bom humor e boa disposição para levar o barco a bom porto, mas não baixem a guarda. Um dia este ano fará parte da história.

 

As janelas


Liliana Rodrigues

11.03.20

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(Imagem retirada do Google)

 

No outro lado do vidro a vida acontece. Mais uma vez, no céu, a noite deu lugar ao dia e a chuva foi derrotada por o sol que ainda recupera da batalh travada. O dia começa instável como os primeiros passos de uma criança, vai ganhando a confiança de um adulto e vai morrendo como a vida que se esgota. 

A automotora rasga a paisagem verdejante transportando, os seus passageiros, pelas memórias de dias gloriosos da ligação ferroviária entre Viseu e Aveiro a bordo do Vouguinha. O som da chegada ao apeadeiro traz de volta à realidade do quotidiano. A máquina está grafitada com o desdém de quem não conhece a sua história. Que atrevimento.

Fecho as janelas e deixo-me envolver pelos sons familiares do vento, a brincar com as folhas dos pinheiros e dos eucaliptos, e da velha automotora. O vento beija-me as faces e a felicidade, de estar novamente em casa, invade-me. As janelas abrem-se e o mundo lá fora é um lugar seguro e feliz. E o que é o mundo senão um reflexo do que somos por dentro?

Dizem que devemos voltar ao lugar onde somos felizes. E volto. Sempre que possível. Sempre que a azáfama do dia-a-dia, da vida em contra-relógio, o permite. E permite tão pouco. Os anos passaram e muito se alterou, mas a paisagem permanece intacta. A automotora grafitada resiste às mudanças virtiginosas impostas por uma sociedade à pressa. A linha do Vouga foi encurtada tal como a vida o vai sendo: o paralelismo perfeito.

As janelas estão abertas e escorrem água. Bate uma saudade forte de tempos idos; de uma infância bem vivida, de muitos sonhos sonhados e de muitos cenários fantasiados. A automotora apita de partida e as janelas abrem-se. O que são os olhos senão as janelas da alma?

 

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