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Inquietações

Inquietações

10
Out22

Reflexo do espelho

Liliana Rodrigues

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Quem és tu que me olhas com desdém e ao mesmo tempo com piedade? Quem és? Que queres de mim? Olhas-me com desprezo do que sou. Do que me tenho tornado. Olhas-me como se não fosse quem queres ver. Quem procuras? E olhas-me com piedade como se morresse aos poucos diante de ti. Quem procuras? Quem esperavas que fosse? Quem és tu desse lado do espelho?

Vejo-te confiante e determinada. Segura de ti mesma. Invejo-te e lamento-me. Tu, aí desse lado, tão forte e tão dona de ti mesma. Eu, deste lado, tão insegura e desesperada tentando manter-me à tona num mar agitado. És quem deveria ser. Mas, não sou.

Cada dia que passa é uma luta nesta batalha sem fim. Tento aproximar-me de ti, de como és, mas falho constantemente. Tão próxima e tão distante. Consigo-te alcançar com a mão, mas não consigo chegar-te. Estás aqui, a olhar-me, mas não te consigo tocar. Quando ficaste desse lado do espelho?

Olhamo-nos olhos nos olhos. Vejo-me em ti, mas não me reconheço na imagem refletida pelo espelho. És a imagem de quem devia ser. Mas, não sou. És quem devia ser. Perdi-me no tempo que já não volta. Desviei-me do caminho que devia ter trilhado.

Olhas-me com desdém. Todos os sonhos que sonhei e não alcancei. Todos os projetos que não conclui. Escrutinas-me a alma à procura de um resquício do que devia ser: de ti. Será que consegues ver?

Olhas-me com piedade porque sabes o como me esforcei. Bem sabes que o controle é mera ilusão. A vida prega partidas e nada é como julgamos ser. Ainda me consegues ver.

A essência não mudou. Permanece à espera de se conseguir manifestar.

Olhamo-nos. Estranhamo-nos. Aceitamo-nos. Prometemo-nos. Iremos fundir-nos numa só. Seremos. Serei quem és desse lado do espelho e terás outro olhar para mim.

 

 

 

(Imagem retirada do Google)

 

21
Ago22

Encontrei o amor

Liliana Rodrigues

Procurei o amor e não encontrei. Esperei que o amor me encontrasse e desiludi-me. Não compreendi o porquê. Tentei encontrar uma razão para não ter a felicidade de encontrar o amor. 

Que há de errado comigo? Onde estou a falhar?

Procurei a razão. Precisava de um motivo válido para o meu azar. 

Não sou suficientemente bonita? Não sou suficientemente inteligente? Não sou suficientemente interessante? Não sou suficientemente divertida?

Sou gorda? Sou chata? Sou difícil? Sou inculta? 

Que se passava comigo? Tinha que existir uma razão. E existia.

Parei de procurar e encontrei-me.

Não precisava de ninguém para ser perfeita tal como era. Comecei a amar-me. Cada característica. Cada ruga. Cada estria. Cada centímetro de celulite. Sou perfeita, tal como sou.

Encontrei finalmente o amor. O meu amor.

 

 

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(Imagem retirada do Google)

21
Jun22

Antes e depois

Liliana Rodrigues

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Tudo na vida tem um antes e um depois. Antes e depois de tirar um curso.

Antes e depois de começar a trabalhar.

Antes e depois de um relacionamento.

Antes e depois de encontrar aquela pessoa.

Antes e depois de ter filhos.

Antes e depois de uma perda.

Antes e depois de…

Há sempre um antes e um depois.

Os acontecimentos na vida transformam-nos. Ensinam-nos. Fazem-nos crescer. Ou não. Voltamos a repetir alguns comportamentos até compreendermos o que é preciso. Não se trata de errar na vida ou de acertar. Não há escolhas certas nem erradas. Há escolhas. Há impactos das escolhas.

Há relacionamentos. Pessoas com quem convivemos uns momentos e pessoas que ficam toda a vida. Pessoas que nos aumentam e outras que nos diminuem. Pessoas que nos ensinam e outras que nos obrigam a aprender. Todas nos deixam uma marca.

A grande pergunta a fazer é: “Que marca quero deixar nos outros?”

A realidade é cada vez mais gasosa. As mudanças no mundo são mais rápidas que a velocidade da luz, mas há um elemento comum: o ser humano. Toda a mudança de realidade deve-se a ele. Ele é o problema e a solução, então, que marca queremos deixar nos outros? No mundo?

O que parece ser um pensamento abstrato, talvez deva ser a bússola para o sentido da existência. Numa altura em que a mudança é tão rápida, obrigando a constante adaptação e readaptação, talvez seja preciso um sentido para nortear a vida.

Serei o depois em muitas vidas. Espero, sinceramente, ser um depois positivo em grande parte delas.

 

 

 

(Imagem retirada do Google)

11
Jun22

A camisola nova

Liliana Rodrigues

A sua curiosidade acordou aos primeiros raios de sol. Saltou da cama, vestiu-se e correu. Um misto de ansiedade e de excitação tomou conta de si. Queria abrir o seu presente. Que teria ganho este ano?

Sonhava com as possibilidades. Um computador. Um smartphone novo. Uma viagem. Um bilhete para aquele concerto. As expectativas ferviam-lhe no sangue: pulsavam. Não as conseguia conter.

- Onde está o meu presente?

- Bom dia. Feliz aniversário.

Envergonhada, agradeceu. Queria perguntar pelo seu presente, mas talvez fosse inoportuno. Olhou à volta e não viu indícios de nada. Se voltasse a perguntar iria soar a desespero e não era nada disso. Não. Não ligava a coisas materiais. Estava apenas curiosa. Sim, era isso.

Saiu de casa para mais um dia.

A manhã avançava e com ela a ansiedade. Certamente estariam a preparar uma grande surpresa para a hora do almoço. Imaginou algumas pessoas, com os seus presentes, a cantar “Parabéns a você”. Viu-se a abrir todos aqueles presentes e a agradecer a quem se lembrou de si. Deixou-se submergir naquela imagem.

A hora de almoço passou e nada aconteceu. Nada do que tinha sonhado. Nada do que tanto desejava. As horas passavam e o dia chegava ao fim. A sua excitação começava a ser substituída por desalento. Tristeza.

- Como foi o teu dia? Correu bem?

Saiu-lhe um sim insidioso. Um sim que gritava um não silencioso. Um sim forçado como o sorriso que fingiu. Plástico. Recolheu-se no quarto. Estava pronta para chorar a sua frustração.

É fácil criar ilusões, mas o confronto com a realidade pode ser duro. Já pouco lhe importavam os presentes. Só queria não se sentir assim.

- Vens jantar?

- Não me apetece.

- Não devias estar assim, é o teu dia de anos. Que aconteceu?

Um nada saiu. Tão triste como enfurecido. Foi convidada a rever o dia e a prestar atenção aos detalhes. A verdade é que ligamos pouco aos pormenores da vida. Estamos habituados a ler as letras gordas e desprezamos o texto.

Sentou-se à mesa e percebeu que o seu maior presente eram os que estavam, e tinham estado, presentes. O maior presente sempre foi o amor. Agradeceu o presente de os ter a todos presentes. No fim, recebeu o seu presente. Uma camisola nova.

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(Imagem retirada do Google)

10
Jun22

COVID +

Liliana Rodrigues

 

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Ao fim de dois anos e uns pós de perlim pim pim, lá fui agraciada com o dito vírus. Dois anos e tal. Estão a perceber a raiva? Depois de dois meses e meio de confinamento longe da família. Depois de dois anos e tal a cuidar diretamente de pessoas positivas. Depois do pandemónio que foi a vacinação COVID. Depois de tanto cuidado, puff. Não se fez o Chocapic, apanhou-se COVID.

Acordei a sentir-me esquisita. Carreguei o carro, para o tão almejado reencontro com a família. Achei que não era prudente fazer-me á estrada sem enfiar a zaragatou no nariz. Só pelo sim e pelo não. Puff. Saiu-me a terminação do que seria a minha sorte grande.

Liguei logo à minha mãe e informar o resultado. Desmarquei a festa de aniversário que tinha programada para a minha filha. Cancelei a ida ao Oceanário de Lisboa. Aguentei a tristeza e a birra da miúda por não ir ver os avós.

Claro que não compreendeu. Óbvio. Como se explica a uma criança de cinco anos que não se pode ir ver os avós? Tentei. Disse-lhe que era para os proteger. A indignação continuou, afinal ela não está doente. E porque não ir com máscara, perguntava-me ela. Drama atenuado, venha daí o ficar um dia inteiro em casa.

Sim, já espalhou tudo o que havia para espalhar. No quarto. Na sala. Em todo o lado. Literalmente. Assisto a sprints entre o quarto e a cozinha, com um balão gigante que comprámos na feira há uns cinco dias atrás. Bem, pelo menos alguém conseguiu canalizar a frustração para algo lúdico.

Sufoco dentro de uma máscara P2. Lavo-me com álcool gel e peço a todas as entidades para não infetar ninguém. As dores no corpo tomam conta de mim. Afundo-me no colchão e desejo que amanhã seja um dia melhor.

 

13
Fev22

Feliz dia dos namorados, meu amor

Liliana Rodrigues

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Estou a terminar os preparativos. Amanhã nada pode falhar. Não posso falhar. Tenho tudo planeado. Vai ser perfeito. Tem que ser perfeito. Desta vez.
O dia acorda e com ele a esperança. Juro que me vou esmerar. Das outras vezes falhei, mas hoje não. Não o vou permitir. Olho ao espelho e, como quem assina um contrato, selo o acordo.
Passo uma base mais escura para esconder os papos negros. Dou um realce discreto à tez macilenta. Passo um batom suave. Não posso exagerar. Não posso estragar já tudo. Não, não posso.
Está perfeito. O dia está perfeito. Tudo flui na perfeição. Tenho medo. Dizem que “quando a esmola é demais o santo desconfia”. Não, hoje não. Hoje tem que ser perfeito. Ao fim de vários anos, hoje, pelo menos hoje, tem que ser perfeito. Não posso falhar.
Corro para casa o mais rápido que as pernas me permitem. Não perco nem um segundo. Evito a vizinha do rés do chão, que vem fazer conversas sobre ti. Atravessou-se à minha frente, acreditas? A mulher alucinou “uns barulhos” ainda ontem à noite. Ela precisa de ajuda. Rapidamente. Está muito mal, coitada.
Subo os degraus dois a dois. Destranco a porta e desejo que não tenhas chegado ainda. Felizmente não. Ainda tenho tempo para te surpreender. Ainda há esperança para te agradar. Não vou falhar, prometo.
Preparo a tua comida preferida, tal como gostas. Levo ao frigorífico aquela sobremesa que a tua mãe me ensinou. Prometo que fiz tal e qual me ensinou. Desta vez fica como a dela. Ai não, se não fica.
Visto uma blusa com um pouco de decote, mas sem exagerar. Coloco aquela saia preta, que fica um pouco abaixo dos joelhos, que me compraste no Natal. Não vou passar maquilhagem, nem colocar bijuterias. Não, isso é para as mulheres que andam à procura de caça. Vou ser a mulher perfeita que tanto queres. Prometo, não vou falhar. Hoje não.
Ouço os teus passos pesados subirem os degraus. O meu corpo treme. Sinto o coração a sair-me pela boca. O ar torna-se pesado demais para respirar.
- Que estás aí a fazer especada? Não vês que cheguei?
Corro para ti. Ajoelho-me e ajudo-te a descalçar esses sapatos tão pesados. Trabalhas tanto para que nada nos falte. Sou tão sortuda por te ter. Por me permitires ser tua mulher.
Reparaste que estava diferente. Que felicidade. Sabia que não te iria desiludir. Sentiste o cheiro da comida que tanto gostas. Perguntas-me o que se passa e advertes-me que não gostas de surpresas. Que é bom que não seja uma gravidez.
Sai-me timidamente um “feliz dia dos namorados” e o teu rosto enfurece. Peço-te mil desculpas pela parvoíce. Queria tanto agradar-te e no fim estraguei tudo. Perdoa-me.
Jogas-te sobre mim e dizes-me o quanto te faço sofrer. Sei que não és assim e a culpa é minha. Podia ter-te lembrado para que pudesses, também tu, mostrar o teu amor. Inferiorizei-te com esta minha atitude altiva. Mais uma vez, estraguei tudo. Como fui capaz?
- Desculpa, meu amor. Não queria que te sentisse assim. Só te queria ver feliz.
Agarras-me com força. Sinto os teus dedos cravarem-me a pele. Bates com a tua cabeça na minha e gritas-me para que não repita a graça. Nunca mais, prometo. Pedes-me para que tire a roupa, apoderas-te do meu corpo enquanto me dizes tudo aquilo que sou. Desferes-me golpes no corpo menos dolorosos do que as palavras que me atiras. Nada, não valho nada. Apertas o meu pescoço com força enquanto me penetras violentamente.
Fico imóvel. Deixas-me para trás enquanto saboreias o banquete. Espero que tenhas gostado, meu amor.
As horas passam e nem sentes a minha ausência. Deitas-te ao meu lado. Sentes-me finalmente tal como fiquei. O resultado do teu amor está ali. Morta. Ao teu lado. Até ao fim.
Feliz dia dos namorados, meu amor.

 

 

 

(Imagem retirada do Google)

02
Fev22

A derradeira fotografia

Liliana Rodrigues

A noite começava a cair. A cidade agitava-se freneticamente com o regresso de muitos às suas casas. Fervilhava vida, contrastando com a temperatura que caía. Gelava.
Vagarosamente avançava. Gostava de observar o mundo à sua volta, como que fotografando mentalmente: cada passo, cada gesto, cada rosto. Os seus olhos maduros tinham a capacidade de captar a beleza em cada pormenor.
Era a preto e branco que imortalizava cada momento. A cru. Sem que a distração da cor impedisse de detalhar o genuíno. A expressão dos rostos. O detalhe do movimento. A paixão da alma.
Caiu. O seu corpo permaneceu, ali, imóvel à mercê da noite fria. A vida pulsava naquela rua de Paris. Efervescia cor, luz, som e deslumbre aos olhos dos que passavam. Alheios. Embriagados em si.
Como que eternizado por uma lente, ficou. A sua viagem terminava mais cedo do que era previsto. Nunca chegou ao destino. O grande fotógrafo tornava-se na derradeira fotografia.
Exposto à vista. Ignorado pelos críticos. Tão frio. Tão cruel. Tão desumano.
À sua volta, a vida fervilhava enquanto que o frio se apoderava do seu corpo. Entranhava-se nos músculos, enregelando os ossos e gelando a alma. O coração congelou com a indiferença. A alma abandonou o corpo gelado. A vida parou.
A fotografia perfeita de uma sociedade gélida. A imagem crua do mundo. A preto e branco, para que a cor não amenize a sua dor.
Não foi o frio de Paris que o matou. Não. Foi o gelo da indiferença. A frieza das pessoas que deliberadamente o ignoravam, deixando-o no chão a morrer.
O que o matou fomos nós. A sociedade indiferente, fria, egoísta e cada vez menos humana. Tão cheios de certezas. Tão cheios de convicções. Tão cheios de pressa. Tão cheios de nós. Tão incapazes de sentir a única emoção que nos torna humanos: empatia.
Se fosses tu, ali, naquele chão frio? Se fosse eu? O que estamos a fazer?
Até sempre, René Robert.

(Imagem retirada do Google)

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10
Jan22

O controlo

Liliana Rodrigues

 

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O controlo, aquela ficção low budget que todos fingem ser revolucionária. Vive-se na ilusão de o conseguir. Calculam-se todas as variáveis. Levantam-se todas as hipóteses. Que desperdício. Que perda de tempo.
Tanto tempo, mas tanto tempo. E energia? O desgaste que provoca. O cansaço. O aborrecimento. No final? O confronto com a realidade; nua e crua.
Não se controla nada. Absolutamente nada.
E perdemos tempo na ilusão vã de se conseguir controlar. Por cada acontecimento controlado desencadeia-se uns quantos improváveis. E tenta-se, mais uma vez, controlar. Perdemo-nos no meio de tanto controlo. Descontrolados. Desgovernados. Desesperados.
As forças tornam-se o combustível do controlo. Drenados pela impossibilidade da previsão. Continuamos tentando alcançar o inalcançável: o controlo total. Ingénuos. Nem o que sentimos somos competentes para controlar.
Então, para quê tanto desperdício? Para quê tanta angústia sobre o que não nos pertence? Pelo o que não vamos conseguir alcançar? Quanto tempo mais viveremos na ilusão angustiante do que nos aprisiona?
Morre-se tanto no cativeiro mental. Sejamos livres. Abrace-se a liberdade da imprevisibilidade.
O que pensam de nós. O que dizem. O trânsito. O tempo. As pessoas. As circunstâncias. O passado. O presente. O futuro. Não controlamos nada, mas somos controlados pelo que julgamos controlar.
Deve-se iniciar a revolução. Quebrar os grilhões do controlo. Escalar a montanha das falsas crenças. Partir em mil pedaços o vidro dos medos. Abrace-se a liberdade que as possibilidades nos trazem. Sejamos livre de verdade. Livres do controlo.

 

(Imagem retirada do Google)

26
Nov21

A resiliência do SNS

Liliana Rodrigues

A resiliência do SNS

Ora bem, senhora ministra Marta Temido. Cometer erros todos cometem, mas, já dizia a minha avó, “quem não se sente, não é filho de boa gente”.

Disse, de forma imprudente e descuidada, que o SNS precisava de profissionais mais resilientes. Certo é que, foram contratados mais profissionais durante a pandemia, mas a escassez de recursos humanos já existia de forma acentuada. Já se trabalhava com os mínimos. O insuficiente para uma prestação de cuidados de saúde de qualidade e segurança. Sim, disse mesmo insuficiente, isto porque, os tempos médios de espera para cirurgias e consultas de especialidade já andavam, há muito, pela hora da morte.

Nesta altura os profissionais já tinham iniciado o seu treino de resiliência. Fazer mais com o nada que se tinha, era o lema.

Se olhássemos para os CSP, estes profissionais já estavam a treinar, na época pré COVID, a sua resistência. Não no sentido de se constituírem como uma força de oposição, mas no sentido de suportarem os longos e rigorosos invernos dos CSP. Sendo estes os parentes pobres do SNS, vivendo na sombra dos cuidados de saúde secundários, os profissionais deste setor já tinham iniciado o mestrado em resiliência. Um profissional para vários programas de saúde, visitação domiciliária, horário alargado de consulta, vigilâncias, vacinação, consultas de rotina, saúde da mulher, da criança, de planeamento, saúde escolar, intervenção comunitária, ECCI… Desculpe, Sra. Ministra, se é um pouco confuso.

Na verdade, os profissionais já não sabiam por onde se virar antes da pandemia. Imagine agora.

Vacinação, vacinação, vacinação e dois dias para tudo o resto. Isto é a semana de CSP se não houver o bónus da vacinação ao fim de semana. Com isto não quero dizer que a vacinação não seja importante para o controlo dos efeitos da COVID, quero é salientar que, muitos CVC no país, são assegurados pelos mesmos profissionais dos CSP da época pré COVID. Ou seja, um número inferior, arriscava mesmo a dizer que negativo, relativamente às necessidades atuais.

Voltando ao assunto da resiliência. Se já se trabalhava no SNS com um número insuficiente de profissionais de saúde, começando a assistir-se ao êxodo destes trabalhadores, e que agora numa altura em que são preciosos estes e mais alguns, não acha que está na altura de mudar alguma coisa? A estas pessoas não falta resiliência, mas melhores condições de trabalho, reconhecimento e valorização.

Os profissionais do SNS, mesmo com as suas fragilidades, estiveram e estão pronto para responder às necessidades da população. Será que os governantes estão prontos para responder as necessidades dos profissionais do SNS? É que, parece-me a mim, enquanto profissional do SNS, que resiliência não nos falta. E resiliência é bem diferente de abegnação.

04
Set21

República das bananas

Liliana Rodrigues

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Hoje o texto foge um pouco à minha forma de escrita. Não sou muito de comentar a actualidade, mas desta vez vou fazê-lo. Tenho assistido nos últimos dias a algo que me inquietou. Sobre o que estou a falar? Campanha política.

Respeito muito quem decide fazer carreira política. São os políticos que tem a missão de decidir e implementar as medidas necessárias para melhorar a vida das comunidades. Sim, disse missão. Esse deve ser o espírito de quem se disponibiliza para exercer a função de político.

Não é de todo uma função fácil de desempenhar, afinal, eles estão sempre na linha de fogo. Alvo de todas as críticas e  incompreensões continuam a desempenhar a função para a qual foram eleitos: ou deviam.

À parte do seu desempenho, que não é o que estou a avaliar, porque para tal existem as eleições, não consigo compreender certos comportamentos dos políticos ou futuros políticos.

Nos últimos dias tenho tido a sensação de que, a classe política, não saíram do pré escolar. Porquê? Porque o modo como muitos se decidem promover passa por denegrir o adversário. E, de repente, assistimos a disputas infantis de recreio de escola.

Não me estranhava nada que um candidato dissesse que outro cheirava mal dos pés e, que portanto, não deve ser eleito. Gostaria muito de ver campanhas limpas de acusações, picuinhices e com apresentações concretas de soluções e estratégias de melhoria.

Se este circo entretém muitos eleitores, a mim irrita-me profundamente. Se querem que respeitem os políticos e a política, é fundamental darem o exemplo. Sempre ouvi dizer que “o exemplo tem que vir de cima”.

A política em Portugal deixa muito a desejar, muito por culpa dos políticos. Se querem respeito, tenham respeito entre vós e por nós. Poupem-nos ao circo das campanhas eleitorais da troca de acusações. Trabalhem efetivamente em conjunto para as comunidades. Desempenhem a missão para a qual se disponibilizaram sem interesses pessoais camuflados. Sejam verdadeiros políticos.

Acredito que a política é uma profissão nobre e digna. É preciso mudar a mentalidade dos políticos para mudar a política. E, talvez assim, deixemos de ser a república das bananas.

 

 

(Imagem retirada do Google)

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