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Inquietações

Inquietações

Tranquilidade ilusória


Liliana Rodrigues

26.08.19

Hoje acordei com vontade de gritar. Abro a boca e nada. O único som, que sou capaz de emitir, resume-se a um suspiro, após uma inspiração forçada. O som inexpressivamente mais expressivo, de quem não consegue traduzir em palavras o que lhe vai na alma. Fecho os olhos por milésimos de segundo. Ergo-me. Só mais um dia, igual a tantos outros, que começa.

Olho ao espelho, a imagem reflectida, não sei quem é. Estranho-me na minha familiaridade a este rosto. Os anos passam, mas a expressão facial não se altera. Há tempo demais que silencio o que grita, a plenos pulmões, dentro de mim. 

- Força.

Força é a palavra de incentivo que mais abomino. “Tens que ter força”. Vejo dentro de mim que é o que mais tenho tido. Força e forte demais, para que alguém possa perceber, escondendo este sufoco que só eu conheço.

Anarquia total entre mente e corpo. O caos instalado dentro de um corpo pequeno demais para suportar tamanha luta: cansado, desgasto e envelhecido. Cresce, como uma semente, bem pequenina, controlando tudo.

- Calma.

Aceno, com a cabeça, afirmativamente, mas, no meu íntimo, reprovo o conselho. Calma tenho tido durante tempo demais. Demasiado tempo a silenciar a tempestade que me destrói, aos poucos e poucos, sem se ver.

Sou vítima da minha aparente calma. Tenho uma tranquilidade ilusória para quem só vê pela rama. Despedaço-me no rebuliço que acontece em mim. Finjo um sorriso. Solto uma gracinha e está tudo bem. Engodo.

- Vai tudo correr bem.

Uma certeza de trazer por casa. A certeza no cagar que não erra o chão. Merda para a certeza de quem não tem a certeza de nada. Não me venham com falsas esperanças num futuro que ninguém conhece.

O sofrimento não precisa de ser explicado. Não precisa de ser compreendido. Aprendo a viver um dia de cada vez. Uma luta de cada vez. Acaba mais um dia, como tantos outros.

Vamos discutir


Liliana Rodrigues

12.08.19

Anda cá e senta-te confortável porque de hoje não passa. Vou-te dizer tudo o que está aqui acumulado há anos. Tudo o que eu sempre calei. Tudo o que tolerei sem que mereças. Hoje é que “a porca torce o rabo”. Vais “ver o cu à carriça”. Vá, senta-te aqui.

Irritas-me. Enervas-me. Canso-me de te dizer para não deixares a roupa espalhada. Pensas que sou tua criada? Deves achar que apanhar a tua roupa substitui o ginásio. E a louça na mesa? Achas que preciso de fazer levantamento de pesos? Estás a insinuar que estou gorda e flácida? Anda e senta-te aqui.

Sabes o que não suporto em ti? Queres mesmo saber? Queres que te diga? Vou-te dizer olhos nos olhos para que não existam meias palavras. Não quero que fique nada por dizer. Hoje não passa. Senta-te aqui à minha beira. Vamos falar.

Já pensei em tudo o que te vou dizer. Contei e recontei todas as vezes que me irritaste. Todas as vezes que me deixaste com os nervos em frangalhos, capaz de partir tudo à minha volta. Agressiva não. Irritada. Já te disse que me irritas? Anda cá e senta-te aqui.

Chegas a casa. Tens um ar cansado. Beijas-me a testa e perguntas como foi o meu dia. Ouves a descrição detalhada de “tudo e mais um par de botas”. Escutas com atenção todas as coisas aborrecidas que te conto. Olhas-me com ternura. Vamos falar.

Olho-te nos olhos. Tens um olhar tão doce e meigo. Esse verde azeitona sobressai. Os teus olhos reflectem-me. Observo-me. Não sou assim tão perfeita. Não me olhes assim, com esse ar enamorado. Tu perturbas-me. Anda. Senta-te aqui.

Ouço a tua voz. Melodiosa e calma. Consegues sempre transmitir-me segurança e calma, mesmo quando o meu mundo parece desabar. Quando tudo parece perdido e sem solução, consegues sempre ter uma palavra de consolo. Vamos falar.

Sabes uma coisa? Também tenho os meus defeitos. Por vezes esqueço-me de tirar os cabelos da escova. Infesto o quarto com aquele perfume que te enjoa. E até deixo a louça na pia para arrumares. Anda. Senta-te aqui.

Vamos falar. Os teus defeitos afinal não são assim tão importantes quanto isso. Eu também tenho os meus, que toleras sem nada dizer. Senta-te ao meu lado. Vamos falar. Os defeitos não são assim tão grandes quanto isso. Consigo bem viver com eles. Tornam-te único. Especial.

Anda. Senta-te aqui. Vamos falar. Vamos sonhar juntos. A vida não faz sentido sem ti ao meu lado. Vamos perder-nos nos braços um do outro. A vida só faz sentido no teu abraço. Vamos amar. E amar muito. A vida não faz sentido sem o teu amor. Vamos falar.

- Senta-te aqui. Já te disse hoje o quanto te amo?

 

Um dia...


Liliana Rodrigues

06.08.19

Um dia vou ser tudo o que eu quiser. Vou pisar os principais palcos e vão-me estender uma passadeira vermelha. Vou ter o meu nome escrito no muro da fama. Todos me conhecerão. Terei o mundo a meus pés. Ai vou, pois.

Um dia serei livre. Vou poder fazer o que me apetecer sem ter satisfações ou justificações para dar. Vou viajar para onde e quando quiser. Serei só eu e a minha mochila às costas. Teremos todo o mundo para conhecer. Vou disfrutar da vida, divertir-me e ninguém me vai impedir.

Um dia consigo aquele emprego. Terei estabilidade suficiente para avançar para a compra da casa. Não preciso que seja muito grande. Basta que tenha três quartos, um quintalinho para as churrascadas e uma piscina. Todos gostam de uma boa tarde de piscina antes da churrascada. Talvez até consiga uma promoção e junte algum para o carrito. Raios me partam se não consigo aquele emprego.

Um dia encontro a minha alma gémea e preencho este vazio dentro de mim. Vamos tornar-nos amigos inseparáveis, confidentes, companheiros e grandes amantes. Será perfeito. Uma fusão de almas e corpos nunca antes vista. Não viveremos um sem o outro. Talvez tenhamos uns cinco filhos.

Um dia levo os miúdos à Disney. Gostava de ver as carinhas deles ao ver as suas personagens favoritas. Vão ficar tão felizes. Será uma surpresa. Tenho que inventar uma desculpa para os meter no avião. Vou dizer que vamos visitar os primos de França. Vou levá-los à Disney, sim.

Um dia despeço-me. Não estou para aturar mais esta falta de consideração. Não estou mais para ser humilhado, em troca de uns míseros trocos a que chamam salário. Não estou mais para roubar tempo à minha família por quem não me respeita. Chega. Um dia despeço-me.

Um dia saio de casa. Não aguento mais viver neste sufoco. Os miúdos, as contas, a casa, o cão, o gato e até o peixe. Pensam que sou de ferro? Não sou. Não aguento mais toda esta pressão nas costas. Não há um dia de sossego. Não há um momento de paz. Não há nada que faça bem feito. Um dia saio de casa, caraças.

Um dia vêm visitar-me. Sei que os meus filhos têm as suas vidas. Eu sei o quanto pode ser complicado. Têm que trabalhar. Têm os seus filhos. Têm os seus problemas. Têm as suas coisas. Eles querem vir, eu sei. Não têm conseguido. Um dia vêm ver-me. Eu sei que vêm.

Um dia passou.

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