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Inquietações

Inquietações

O amor morre


Liliana Rodrigues

29.09.19

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Atravessam-se tempos difíceis, tempos de luta, de guerra mesmo. Tempos em que é preciso manter o estado de alerta. Fiquemos atentos, meus caros e minhas caras, e não baixemos a guarda um segundo sequer.

Como é do conhecimento de todos, o mundo está a mudar e para melhor mudamos todos, mas não é o caso. É caso para sair à rua e, com todas as armas que temos, lutar. Não vai ser fácil, não vai ser bonito, mas juntos vamos conseguir.

Nunca, em tempo algum, se imaginou que chegaríamos a este ponto. Encontramo-nos numa encruzilhada, irmãos e irmãs, e é preciso decidir para onde queremos caminhar. Há que decidir, e já, se seguimos a manada os se lutamos com as armas que temos.

O amor está a sob ataque. Cada dia que passa perde mais uma luta nesta batalha perversa. Enfrenta a maior crise da história da humanidade e parece que não há forma de a travar. Perde-se amor a cada segundo que passa.

Todas as histórias de amor, as mais marcantes, escritas pelos mais enamorados, estão a cair no descrédito. As pessoas estão a deixar de acreditar nessa forma de amar. Perdeu-se a fé. Estão a deixar de amar. O amor está a morrer.

Já não querem o amor: das histórias, o amor dos poetas e escritores, o amor arrebatador, o amor que tudo suporta, o amor que tudo sofre – e se sofre -, o amor que transforma. Já não se quer amar. E isto, sim, é a maior crise de toda a humanidade.

O amor está a ser substituído pelo contacto físico fugaz, desinteressado, desapegado e desamado. Pedaços de carne se entrelaçam, misturam e fundem-se só para satisfação corpórea de um impulso primitivo. E não se ama mais.

Afirma-se, à boca cheia, de que somos a espécie mais evoluída e, no entanto, cedemos tão facilmente a impulsos, de forma irracional, tão primitivos como esses. E não se ama mais.

Haverá acto mais perfeito do que o amor a acontecer entre duas pessoas que se amam? Que se amam no verdadeiro sentido da palavra: com respeito, com amizade, com cumplicidade, com afecto, com solidariedade, com empatia, com compreensão: numa simbiose perfeita, onde não se distingue onde começa um e onde acaba o outro.

A beleza mágica da fusão de dois corpos numa só alma; a uma só voz: o amor. A perfeição materializada no acto do amor. A perfeição tornada noutro ser feito à imagem e semelhança de quem o gerou. E não se ama mais.

O amor está pelas ruas da amargura, numa crise nunca antes vista; nunca antes imaginada. É urgente lutarmos juntos, com amor e em amor, em união com todas as armas que temos. Só se ganha esta batalha com a arma do amor. Irmãos e irmãs, espalhemos amor por todos os cantos, ou semicírculos, do mundo. Amemo-nos, no verdadeiro sentido da palavra, antes que o amor morra. O amor está a morrer.

 

Utilizador


Liliana Rodrigues

26.09.19

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De um momento para o outro, sem que dessemos conta, o mundo ficou mais pequeno. As distâncias encurtaram-se e as fronteiras ultrapassaram-se. As pessoas aproximaram-se, reencontraram-se, conectaram-se numa rede global.

Milhões de pessoas estabeleceram contacto entre si; em todas as nações e em todas as línguas. O mundo aproximou-se. O que antes levava semanas, a tornar-se do conhecimento publico, sabe-se agora em fracções de segundos.

Difundiu-se conhecimento. Avançámos de forma alucinante em descobertas científicas e tecnológicas. Vimos que era bom. Avançámos mais. Criaram-se formas mais fáceis e mais rápidas de comunicar banalidades do quotidiano. E era bom.

A criação era agradável aos nossos olhos. Avançámos perdendo o medo. Perdemos o pudor. Perdemos valores. O que antes servia para nos aproximar serve agora para manifestar o pior de nós. Distanciados. Alienados.

Tornámo-nos opiniosos. Críticos exímios. Profissionais do achismo. Ávidos pela oportunidade de dar o seu cunho pessoal, forte como a maré: influenciável e inconstante. Coerentes na incoerência de tudo opinar. Sabemos tanto sobre coisa nenhuma.

Revoltados por natureza, sedentos por uma abertura para poder destilar ódio. Um ódio gratuito para tudo e para todos excepto para quem realmente o merece: a pessoa que o espelho reflecte.

E a vida é perfeita. Emanamos felicidade e sucesso, em cada fotografia e vídeo, partilhados na rede. A perfeição por detrás dos filtros que tapam os poros, atenuam olheiras e definem corpos.

Somos tão solidários com causas distantes e mediáticas, mas fechamos os olhos aos problemas da rua onde moramos. É tão fácil virar a cara, ao que não se quer ou não dá jeito ver. Intrometemo-nos em questões que não nos dizem respeito e as que deviam dizer colocamos debaixo do tapete.

Na rua, viramos a cara ou escondemo-nos, para não cumprimentar com quem nos cruzamos. O bom dia, boa tarde e boa noite perderam-se algures na rede. Somos os melhores amigos e confidentes de quem nunca vimos. E ficamos ofendidos e indignados quando provamos do nosso próprio veneno.

Sofremos da síndrome do Peter Pan. Somos a perfeição numa realidade que não existe. Sobrevivemos à vida, iludidos com a possibilidade de morar na terra do nunca, onde nunca haverá perfeição para estes seres inconsolavelmente imperfeitos.

A criação é boa, continua a ser, mas é preciso fazer um upgrade ao utilizador.

Ela


Liliana Rodrigues

25.09.19

 

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Ela foi entrando subtilmente na vida dele. Começou por estar sempre por perto. A presença dela acompanhava-o para onde quer que fosse. Decidiram sair. Largos meses depois voltaram a fazê-lo. O que tinha começado por ser ocasional, passou a frequente e por fim diário.

Sem saber bem como passou a precisar mais dela, mais e mais, frequentemente. O seu corpo ressacava quando o seu efeito passava. Foram viver juntos. Vivia em função dela; era o seu vício. Ela iludia-o com aquilo que não lhe podia dar: felicidade. Ele era feliz na ilusão do que não tinha; do que sabia que nunca teria, ainda assim era feliz. Perdeu tudo. Perdeu os sonhos.

Os amigos avisaram-no. A família manifestou-se contra ela e aquela estranha forma de amor. Sabia que estavam certos. Sabia que era doença. Sabia que a amava. Ela era a sua droga. O seu ponto mais fraco e como era fraco por se ter deixado enredar desta forma. Dava-lhe tudo sem pedir nada e ela exigia tudo o que ele podia dar e mais ainda. Definhava em amor.

A casa estava cheia dela. Tudo era dela e dele já muito pouco restava; ou nada mesmo. Amava-a com as forças que lhe começavam a fugir. Ele era dela e ela de quem era? Sabia que nunca a teria, não da mesma forma que ela o tinha, era impossível.

O seu amor por ela era doença. Uma dependência, mais do que física, de alma. Viciado. Precisava dela como do ar para respirar. Ele era dela. Um fantoche nas suas mãos. O tapete onde ela adorava pisar, rebolar e se deitar.

Ele precisava cada vez mais dela e do nada que ela lhe dava. O prazer cada vez mais fugaz. Queria mais, cada vez mais. Precisava de mais, cada vez mais. Desesperava por mais, cada vez mais. Ela dava cada vez menos.

Nos momentos em que ela não estava ficava sóbrio. Sabia que teria que acabar ou acabaria mal. Tinha que pedir ajuda. Precisava de se libertar deste amor: doente. Precisava de a deixar, mas cada vez que a via perdia a luta: perdia a cabeça. Perdia-se nela e ela aproveitava-se dele.

Um dia chegou a casa e havia luz. Os espaços que ela ocupara estavam livres. A casa estava vazia e dela nem sinal. Em cima da mesa da sala um bilhete. Uma justificação atabalhoada de quem nada fez por merecer tanto, demasiado, de um pobre coração apaixonado.

Apático observou, o interior da casa, o reflexo de si próprio. Vazio, com muito espaço por preencher; para preencher. A luz iluminava. Apesar da dor, do vazio, sentiu pena dela: da escuridão. Começou a sonhar.

Gabriel


Liliana Rodrigues

17.09.19

 

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Lembro-me bem do dia em que comecei a trabalhar. Vinte e oito anos atrás. Era tudo tão diferente. Eu, era diferente. Lembro-me das emoções que senti no primeiro dia. Excitação. Medo. Nervosismo. Espanto. Determinação. Alegria. E aquela certeza tremenda de que mudaria o mundo. Ingénuo.

Sonhei. Sonhei muito. Sonhei que usaria os meus saberes para melhorar o mundo. Que um dia teria o meu nome no livro da fama. Que um dia reconheceriam o meu trabalho; a minha dedicação. Sonhei que os meus esforços seriam recompensados. Dinheiro. Sucesso. Uma vida melhor. Imaginei um mundo feliz. Com pessoas satisfeitas. Com as minhas descobertas. Imaginei um mundo colorido.

Ah, se eu pudesse, se por uns breves instantes pudesse, tudo seria diferente. Não nos devemos arrepender do que fizemos. Tudo são aprendizagens. Não devemos lamentar nem por um instante o caminho que percorremos. Não o lamento. Dei o meu melhor. Sempre. Mas se pudesse recuar no tempo. Daria um conselho a mim próprio. Ama mais. Vive mais. Partilha mais. Preocupa-te menos. Sê livre. O Homem é destrutivo. Confia desconfiando. Nem tudo é preto ou branco. As zonas cinzentas podem ser perigosas.

Sinto saudade. Saudade da minha família. Das brincadeiras, ao ar livre, com os miúdos. Das suas gargalhadas. Saudades do aconchego da minha mulher. Como ela é carinhosa. Como ela foi compreensiva quando eu menos mereci. Como segurou sempre o meu mundo quando parecia desabar. Saudades das minhas magnólias. Dos cravos. Das rosas. Saudades. Tantas saudades dessa simplicidade. Dessa felicidade imensa e arrebatadora. Do que já tive. Do que já fui.

As minhas descobertas foram benéficas, mas houve uma que mudou tudo. Mudou para pior. A uma dada altura, fazemos um balanço da vida. Todos os que sentem emoções. Os privilegiados. Eu sou um deles. Sou um dos poucos que tem essa capacidade. A ganância desmedida corrompe o mundo; corrompe a alma. Fui arrastado. Insidiado.

Lembro-me do primeiro trabalho em parceria com Deborah. Uma jovem cientista com ideias inovadoras. Com garra. Com ambição. Com cede de conhecimento. Com fome de eficiência. Formámos uma dupla incrível. Em pouco tempo destacou-se. Eu, parvo, tentei acompanhar. Não queria ficar-lhe atrás. Competição colossal. Quem é o melhor? Quem é mais eficiente? Quem faz a melhor descoberta? Cego alienado. Ignorei os sinais. Ignorei os gritos silenciosos de quem amava. Joguei e perdi.

Embrenhado na minha ambição, perdi. Perdi-me. Perdi os sonhos. Perdi a família. Perdi a minha identidade. Perdi a minha liberdade. Estranho-me. Não me sinto mais eu. Aquele puto inocente de há vinte e oito anos atrás. Não existe. Desvaneceu na competição. Ah, se eu pudesse…

Parecia que estava a fazer a coisa certa. Parecia o mais indicado. As pessoas procuram soluções rápidas. Instantâneas. As pessoas procuram o caminho mais fácil. As pessoas nem sabem o que realmente estão a querer. Não sabem as implicações. Para toda a acção há uma reacção. Não querem saber. Tolos. Já dizia o ditado; “Pior cego é aquele que não quer ver”. A vida é simples. Essa é a sua magia. A vida leva o seu tempo. Para quê apressar? Para quê tentar manipular? Para quê viver nessa ansiedade?

(Exerto do livro (Des)emoções)

https://www.chiadoeditora.com/livraria/desemocoes 

Como te chamas?


Liliana Rodrigues

12.09.19

Queria ter encontrado o momento perfeito, não o mais que perfeito, mas não se proporcionou. Acho que a vida tem destas coisas; teimar em ser do contra. Sabes, tenho andado a ler umas coisas e vou avançar, assim mesmo, sem que seja o momento perfeito, ou o mais que perfeito.

Esta manhã acordei a pensar em ti. Todas as manhãs acordo contigo no pensamento. Precisava ver-te. Desesperava. O meu dia só corre bem quando te vejo. Não é preciso muito, preciso muito, basta cruzarmos olhares e sentir o teu aroma. Preciso como que de ar para respirar. Asfixio se não te vejo.

O mundo moveu-se em slow-motion assim que apareceste. Admirei a ondulação do teu longo cabelo castanho. Pestanejaste e moveste os olhos castanhos pausadamente. Ajeitas-te demoradamente o cabelo, com um gesto envergonhado, enquanto o teu vestido vermelho dançava ao vento. Absorvi cada movimento e gravei-o para o resto do dia. O meu balão de oxigénio.

Não sabes, nunca tive a oportunidade de te dizer, mas és a minha razão de viver. Não consigo imaginar o mundo sem estes nossos pequenos momentos. Não preciso de muito para ser feliz, mas preciso muito de ti. Tu nada sabes, mas vais saber. Não é o momento perfeito, ou o mais que perfeito, mas vou-te contar.

Houve um dia em que te sentaste ao meu lado. Pensei que ia morrer de emoção. O corpo tremia e o sangue fervilhava. Senti o coração galopar desgovernadamente contra as costelas. Não consigo imaginar melhor maneira de morrer do que contigo ao meu lado. Não preciso de muito, mas preciso muito.

Vou-te confessar que tenho procurado muito fugir deste sentimento, que chega a ser doentio, mas não posso mais. Procurei, muitas vezes, nas outras o que só posso encontrar em ti: perfeição. Não me digas que tens defeitos, que todos temos, porque não é verdade. És a personificação da perfeição; um sonho tornado real.

Quis o destino que hoje voltasses a ficar à minha beira neste fim de dia. Imaginei, muitas e muitas vezes, um momento perfeito, ou mais que perfeito, para te contar, mas tenho lido umas coisas e vou avançar assim mesmo.

- Olá. Como te chamas?

Esquecer?


Liliana Rodrigues

02.09.19

O tempo passou, muito tempo mesmo, desde que te vi pela última vez. Recordo aquele domingo à tarde. A tua felicidade por ver ganhar forma o teu objectivo. Os passos que demos. O que falámos. Os teus sonhos. Recordo como se tivesse acontecido há pouco.


Lembro o teu rosto e cada pormenor, mas é a voz. Ouço a tua voz inigualável. Única. Às vezes fecho os olhos com força e, por breves instantes, consigo ouvir a tua voz grave e forte. Ouço o teu passo pesado subindo as escadas de ferro. Consigo ouvir-te.


Seguro a tua fotografia na mão. A saudade, mais que muita, não dá para suportar. O tempo, esse sacana, não atenua o que o coração sente. O tempo não cura o incurável. Não há cura para esta condição.


Todos temos um lado negro, bem sei, mas o teu, caso existisse, era ofuscado pela tua luz. A tua rectidão, a tua autenticidade, a tua dedicação e o teu amor eram as tuas características mais fortes. Admiro-te. Orgulho-me em ti.


Recordo todos os momentos em que estiveste lá para mim. Todas as vezes que me seguraste pela mão. Todas as vezes que, com amor, me explicaste este mundo medonho e assustador. Quem me dera que estivesses aqui.


Tenho tanto para te contar. As lutas não foram o mesmo sem ti. As vitórias souberam a pouco sem ti. Nada, mas nada mesmo, tem o mesmo valor sem que estejas ao meu lado. Ainda preciso de ti. Vou sempre precisar. Podemos falar?


Sei que és uma estrelinha. A mais brilhante de todo o céu. A tua luz continua a brilhar, vai sempre brilhar, dentro do meu coração. Ensinaste-me tanto. Influenciaste-me tanto. Parte do que sou devo-o a ti. Sou grata por a tua presença na minha vida. Sempre que penso em ti o meu rosto sorri. Obrigado.


Será que me ouves? Será que me vês? Será que tens orgulho em mim e em quem me tornei? Será que algum dia nos voltamos a encontrar? Será que me vais reconhecer? Eu, certamente jamais te irei esquecer.

Para ti: tio, padrinho e amigo.

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