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Inquietações

Inquietações

A nossa improbabilidade


Liliana Rodrigues

25.10.19

 

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Foi sem querer que te conheci. Contra todas as probabilidades os nossos caminhos cruzaram-se. Não era para acontecer nem estava planeado. Naquela noite, não era suposto estar ali e tu não contavas passar por lá. Que probabilidade tem a improbabilidade? Pelo menos uma. A nossa.
Tornaste-te amigo de uma amiga, foi assim, e chegaste até mim. Não gostei de ti à primeira vista. Bem sabes que vejo mal. Aos poucos, fui-te vendo. Observando. Estudando, porque “gato escaldado de água fria tem medo”. Mas tu não facilitaste. Não me falaste de nada de ti. Tu também, estavas-me a estudar.
Aos poucos, foste abrindo fissuras na couraça que protegia o meu coração. Foste limando com amor. Desgastando com carinho. Tornámo-nos bons amigos. Confidentes. Comecei a sentir a tua falta pouco depois de saíres. A tua ausência doía mais que uma incisão cirúrgica ou um ponto a sangue frio. A tua ausência enfraquecia-me. Desesperava por ti.
Abri-te o meu coração, contei-te todos os meus segredos e deite o poder para me arruinares. Estava à tua mercê. Despida da armadura que me protegia. Completamente vulnerável. Tinhas todo o poder, e tens, para dar cabo de mim.
Contra todas as probabilidades, tu fechaste feridas e fizeste-me voltar a acreditar. Cuidaste de mim, como quem cuida de um ser pequeno e fraco. Ajudaste-me a ultrapassar medos. Deste-me a força necessária para me reerguer e lutar. Juntos começámos a sonhar.
Sei que não sou, propriamente, fácil de aturar e que tenho algumas características bem lixadas, mas, ainda assim, tu amas-me. E sim, esqueço-me sempre das datas importantes, tipo a de hoje, e talvez vá continuar a esquecer. Mas há uma coisa que é impossível de apagar da minha memória.
Levantaste-me do chão quando eu caí. Ajudaste-me a sair do buraco quando eu não conseguia sozinha. Apoiaste-me em todas as decisões que tomei, mesmo as menos acertadas. Compreendeste todas as minhas ausências por motivos profissionais e de formação. Aturaste todas as minha rabugices e implicâncias parvas. Deste-me a mão e sonhamos juntos. Caminhamos lado a lado. Não somos perfeitos e nem podíamos porque isso era uma chatice. Oito anos e uma filha depois, só tenho uma coisa a dizer:

Obrigado, meu amor.

Amor primeiro


Liliana Rodrigues

21.10.19

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Vamos falar de amor: o mais puro, verdadeiro e desinteressado. O amor que é injustamente esquecido por ser desinteressante; aquele que, tantas e tantas vezes, até vezes de mais, se tem como garantido. O amor que se auto-anula. Já descobriste? Não? És muito distraído. Vá, pensa lá bem.

Vamos falar do primeiro amor. Aquele amor que acontece miraculosamente quando o olhar se cruza; quando se olha olhos nos olhos. Quando o olhar ainda enublado, desfocado e descontextualizado acontece. Um primeiro instante. Um amor cego. E agora? Já chegaste lá? Não? Bolas! Se ainda não sabes, és cegueta.

O amor que é vítima do tempo e que, com o tempo, passa para segundo plano. O amor injustiçado pelos desígnios da vida atarefada e alienada. O amor que poucos têm a coragem de enaltecer. O amor que nunca pára de crescer.

Os seus cabelos são macios, a pele suave e a voz tranquilizadora. Os seus braços, uma muralha robusta e forte, capazes de proteger contra as maiores intempéries da vida. O seu coração (ah, o seu coração), do tamanho do universo e mais além. Sempre presente, mesmo que distante, em todos os momentos. Sempre, sem que seja preciso pedir, porque sabe sempre quando é preciso.

Confidente. Amiga. Apoiante; a maior fã de todos os tempos. Educadora; amorosa e exigente. Enfermeira exímia de todas as doenças e “dói-dóis”, capaz de curar todos os males com um beijo. A guardiã da noite; aconchegando com os cobertores e abraçando a cada pesadelo. A nossa intercessora perante Deus que, quer acredite ou não, só pede a protecção de quem ama: e se ama.

O amor altruísta; que só se contenta com tudo e tudo é a felicidade do outro. O amor de alguém que tudo abdica, arrisca e enfrenta para proteger e defender quem ama. O amor maior de todos os amores. O amor de mãe.

Este amor deve ser lembrado e relembrado vezes sem conta. Deve ser retribuído e redobrado vezes sem conta. Deve ser celebrado para sempre. Este amor é para a vida toda. Intemporal. Imortal. Desigual.

Amo-te mãe.

Outono


Liliana Rodrigues

16.10.19

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(imagem retirada do Google)

Preciso parar; é preciso e urgente parar. Silenciar todo o barulho que nos envolve. Desligar tudo o que nos distrai. Parar. Silenciar. Desligar. Respirar fundo e sentir. Conectar e re-conectar. É urgente antes que seja tarde demais.

Comprimo o crânio com as mãos. Um acto desesperado de silenciar e acalmar tudo o que me perturba a mente. Memórias, pensamentos, sentimentos e muito ruído: sufoco. Asfixio dentro da minha própria mente. Enfraqueço.

Não aguento mais esta forma de existir; sim, porque isto não é, nem pode ser, viver. Não se vive quando se é controlado ao milésimo de segundo. Não se pode viver quando tudo o que se faz é para impressionar, seja quem for, que está à nossa volta. Não se vive quando não se é de verdade. Não é possível. Não é, mesmo de todo, possível viver assim. Existência pura e dura. Vazia.

O Outono chegou. Olho, através da janela, a rua. Lá fora, as pessoas movem-se freneticamente como um exército de formigas. As folhas, dançando ao sabor do vento, começam a cair no chão. Observo por momentos a cena: perfeita. É o sinal que os distraídos ignoram convenientemente. Gostam de viver de e em ilusões vãs. Ingénuos. Inconsequentes.

Tudo tem o seu tempo, a sua duração, nada dura para sempre. É preciso parar, silenciar e desligar. É preciso conectar-se à essência da vida. Não somos imortais como pensamos. Existimos imprudentemente, na ilusão de que somos intocáveis e imortais, desconectados do nosso verdadeiro eu. Usamos máscaras para ser um outro alguém que não nós. Mentimos, mentimos muito, a quem nunca deveríamos mentir: nós.

Parem já. Silenciem já. Desliguem já. Tudo, tudo, tudo. Já! Acordem para a vida. Ouviram bem, acordem para a vida. Olhem para a natureza à vossa volta e vejam os sinais. Interpretem-nos. Já tiveram a vossa Primavera. Já viveram o vosso Verão. O Outono chegou. Acordem antes que passe e, quando derem conta, chegue o Inverno.

Parem de pensar que o Verão será para sempre. Parem de desprezar os sinais do tempo. É preciso que chegue o Outono para colher o que foi plantado. Recolher-se dentro de si e meditar sobre a colheita. O Outono começou, mas ainda há tempo antes do Inverno. É tempo de transformação.

Preciso parar, silenciar e desligar, de tudo e todos, para me conectar ao meu eu. Preciso de me encontrar, de me libertar, com a verdade que sou; quem sou. Preciso de compreender o que faço aqui, antes que chegue o Inverno. Aceitar. O Outono chegou e é tempo de acordar para a vida.

.

 

O dia


Liliana Rodrigues

13.10.19

 

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O dia tinha começado muito cedo. Penteia aqui, estica ali e encaracola acolá. Segue-se o cravejamento com ganchos e ganchinhos. Ficou uma verdadeira obra de arte: magnífico. A maquilhagem deu um ar juvenil e fresco à cara cansada. Ajudaram-me a vesti-lo. Uma peça nova, uma velha, uma dada e uma emprestada não faltaram; os amuletos para a felicidade longa e duradoura. Olhei-me ao espelho. Irreconhecível.

As fotografias começaram a chover. Fiz poses para as objectivas de familiares e do fotógrafo. Pedia-me que lhe desse o meu sorriso mais bonito. Esforcei-me, juro que me esforcei, mas o máximo que consegui era um sorriso amarelo e forçado. Precisava de um tempo para mim. O nó na garganta tinha-se transformado num rolhão pronta a asfixiar. Retirei-me.

Olhei-me ao espelho demoradamente e não fui capaz de a conter. Mas que raio estava eu a fazer? Gostava dele, sim, mas não era o homem da minha vida. Como pude ser tão parva? Como é que não vi antes? Agora tudo era claro. Sim, agora fazia todo o sentido. Saí.

Levantei um pouco o vestido e saí a correr, deixando para trás convidados e familiares incrédulos. Corri o mais rápido que pude, mas aquelas duas ruas pareciam intermináveis. Parei em frente à porta, para recuperar o fôlego, antes de tocar à campainha. Pressionei o botão e a porta abriu-se.

- O seu filho está? Preciso muito, muito, falar com ele. Quero-lhe dizer que estava enganada: é a ele que eu amo.

- Oh, minha querida. O meu filho morreu ontém ao início da noite.

- Não. Não pode ser.

De mãos na cabeça afastei-me tremelicando. Ouvi um zunido e levei uma cacetada; o martelo de Thor bateu-me na cabeça.

- Raios! Vilã errada.

Num salto acordei. Doía-me a cara. As argólas do dossier estavam vincadas.

Mudança


Liliana Rodrigues

07.10.19

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Estou a morrer. Tenho frio. Sufoco. O corpo doí-me. Fecho os olhos lentamente. Escuro. O medo toma conta de mim. A dor agrava. O pensamento tolda-se e, tal como a respiração, abranda. Não sei o que pensar nem o que sentir. Uma amálgama de medo e incerteza rasgam-me de dor. Gemo.

Os olhos abrem-se, com muito esforço, observando o espaço à volta. Sozinha. Estou só comigo mesma. Rendo-me à dor. Não mexo nem um músculozinho sequer e controlo a respiração. Aos poucos a dor adormece.

O meu corpo, pesado e dormente, repousa agora inerte sobre a cama. Cerro, com a pouca força que me resta, os olhos e procuro a coragem necessária, submersa na incerteza do futuro (sim, na morte também há futuro). Estou a morrer.

No meu leito de morte, passo a pente fino toda a minha vida até aqui. Tive altos e baixos como toda a gente. A balança está equilibrada. Gostava de que pendesse mais para o lado dos momentos altos. Gostava de ter feito diferente. Analiso cada momento do meu passado demoradamente. Ainda me resta algum tempo.

Se pudesse, o que mudava na minha vida? Se pudesse voltar atrás no tempo que conselho daria a mim própria? Será que sou a pessoa que idealizei, um dia, ser? Como será o futuro? Tantas questões para tão poucas respostas.

O medo, tal como a dor, agiganta-se. Abro um só olho, aquele que as míseras forças permitem. Observo. Tudo igual. Nada mudou. O mundo continua a girar alheio à minha morte. Indiferente à minha dor. Menosprezando o meu medo. E eu? Ninguém se preocupa.

Estou a morrer. Daqui a poucos minutos deixarei esta vida, esta realidade. Assustador. Angustiante. Stressante. A respiração e o coração aceleram. Um nó na garganta forma-se e as pausas entre inspiração e expiração aumentam. Vou morrer. Preciso morrer. Quero morrer.

O mundo lá fora continua igual, mas eu não. Estou diferente. Estou morta. Dentro de mim, uma força imensa surge e começa a crescer rápidamente. Sinto a coragem e o amor a renascerem. Expandem-se. Estou morta e feliz.

É tão óbvio que soa a estúpido. É tão vital que soa a simples. É preciso morrer para se renascer. Escolhi morrer. Morrer apesar da dor de se morrer. Morrer apesar do medo do desconhecido. Morrer apesar da incerteza angustiante do futuro. Morrer para renascer. E eu quero renascer.

Não sei porque não morri antes. Talvez o meu apego ao inútil tivesse me impedido. Talvez o meu conforto no banal me tivesse travado. Talvez a minha visão formatada da vida me tivesse feito recuar. Talvez tudo isso e muito mais, mas decidi arriscar e morrer.

Renasci. Sou a mesma matéria, mas uma pessoa diferente agora. As vivências do passado são lições de vida e experiência. Renasci para brilhar a paz e o amor. Renasci para viver os meus sonhos. Renasci para viver segundo o coração. Renasci para viver de verdade. Amar de verdade. Romper com a superficialidade, futilidade, fugacidade e a aparência.

Renasci e tenho o coração cheio. Há tanto que quero viver. Ainda há tanto pelo que vale a pena viver, lutar e sonhar. É tão simples ser feliz e livre. E é preciso tão pouco para o ser. É só decidir morrer, para esta forma de vida actual, e renascer, para uma nova. Fazer uma mudança. E, se por algum motivo, falhar é só voltar a morrer.

Sou uma fénix.

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