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Inquietações

Inquietações

As arestas


Liliana Rodrigues

29.11.19

dados.jpg(imagem retirada do Google)

Atirou os dados e esperou. Esperou impacientemente por um resultado. No fundo, a vida resume-se a isso mesmo esperar: por um resultado, um desfecho, uma decisão. E espera-se. E desespera-se.

Os segundos eram os mais longos, da história dos segundos, e os dados rodavam. A ansiedade pelo desfecho consome o tempo que teima em aumentar a cada volta, a cada colisão com o pano. As mãos transpiram e gelam. O coração escoicinha a caixa torácica dificultando a respiração e infligindo dor.

Vê e revê os possíveis cenários. As possibilidades estão em aberto: ganhar ou perder. Serão só essas as possibilidades? Redutor, infinitamente redutor para um universo tão vasto e de incalculáveis possibilidades. A vida é matemática.

Os dados começaram a abrandar e o tempo congelou naquele instante. Realizou o cálculo das probabilidades: cinquenta por cinquenta. Não havia outro resultado. Sabia que na vida não era tudo preto ou branco; existiam outras cores e conjugações de cores. Sabia que conjugando as cores primárias obteria muitas outras cores. Não se podia resumir a duas opções. A vida é uma tela colorida.

Na suspensão do tempo, fez uma oração. Sabia que não havia forma de provar a existência de Deus, mas também não havia forma de a negar. Existem tantos deuses quantos os que a mente consegue acreditar. Tantos quantos nos conseguem salvar. Orou ao seu Deus pedindo a salvação. A vida é fé.

Sem saber o resultado, chorou. Chorou na derrota que, sem ter acontecido, já tinha acontecido. Recusou-se a baixar os braços, mas aceitou o resultado e as suas consequências. A vida é aceitar as derrotas, mas não deixar que elas nos derrotem.

Sem saber o resultado, sorriu. Regozijou-se na vitória que, sem ter acontecido, já tinha acontecido. A vida é celebrar as vitórias.

Os dados ficaram apoiados pelas arestas…

Os dados foram lançados


Liliana Rodrigues

18.11.19

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(imagem retirada do Google)

Atirou os dados e a contenção inconsciente da ânsia por mais ganhou forma. Os seus dedos entrelaçaram-se. Inspirou profundamente. Direccionou o olhar para os seus olhos e, sem que desse conta, fê-los repousar sobre o seu peito volumoso.

Os dados teimavam não parar ou o tempo parecia ter abrandado. Os nervos gritavam por algo que os acalmasse. Agarrou o copo de whisky e encostou-o aos seus lábios sedentos do que nenhum líquido conseguia acalmar. Ela, tal como uma serpente encantada, imitou-o enquanto os dados continuavam a girar sobre o pano.

O seu coração batia a ritmo acelerado. Mantiveram o olhar preso um no outro e os dados pararam de se mover em oposição aos seus corpos embriagados de desejo.

Três ases e dois noves: full house. Não viram, nem era preciso ver. 

Desabotoou vagarosamente, como que querendo vê-lo a sofrer, o sutiã baloiçando o corpo ao som de uma música inaudível. O seu corpo convidava-o a mais do que a apreciação dos seios. O seu corpo acendia-lhe mais a chama do desejo; levou o copo à boca e bebeu tudo, de uma vez só, como que a ganhar a coragem que lhe faltava.

Mordendo o lábio, pegou nos dados e lançou-os; era a vez dela.

Os dados giravam e ele tentava arranjar posição no sofá: ajeitava-se. Estava a uma jogada de lhe revelar todo o corpo. Estava a uma jogada de dois possíveis desfechos. Desejava ardentemente um final feliz. Agarrou a garrafa para encher o copo. Olhavam-se fixamente; ele desesperava e ela lia-lhe os pensamentos.

Os dados pararam e ela olhou-os. Não tinha conseguido qualquer tipo de pontuação. Tirou-lhe o copo da mão, despejou um pouco sobre seu o peito e convidou-o a beber: hesitou. Há coisas em que não se pode hesitar ou a oportunidade passa. Há momentos em que é preciso agir apesar da insegurança ou do receio da rejeição. 

Uma vida ao ralenti é uma farsa, um dissabor oculto, uma farsa mal disfarçada; é uma pseudo vida. Mas para dançar são precisos dois ou pelo menos é preciso um que tome a iniciativa. Alguém que tenha a coragem de viver a toda velocidade; sem medo de se magoar, sem medo de correr riscos, sem medo de merda nenhuma ou limita-se a brincar ao faz de conta com a vida. Não estava para isso.

Sentou-se sobre as suas pernas, virada para ele, e fê-lo saborear o que lhe escorria sobre o peito volumoso e irresistível. Meneou-se sobre o seu colo, agarrando-lhe os pulsos sobre a cabeça entorpecida por aquela lap dance. E amaram-se sem qualquer tipo de regras, sem qualquer tipo de amarras: livres e inconsequentes. E, ai c’um carago, como é bom amar assim. 

Salpicos do que fui


Liliana Rodrigues

15.11.19

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Foi por pequenos esquecimentos que tudo começou. Fui apanhada desprevenida: perdi-me. Acabei a vaguear por as ruas sem as conseguir reconhecer; não existiam pontos de referência que me salvassem. De um momento para o outro, era como se a minha memória tivesse sido apagada: não me lembrava. Entrei em pânico.

 

O diagnóstico acertou-me como um tiro de bala; entrou e foi deixando um rasto de dor por onde passava. Um caso raro para a minha idade. Não me ia entregar à doença sem lutar. Não faz parte da minha natureza desistir. Faço o que for preciso para estimular a memória. Faço o que tudo o que estiver ao meu alcance para não a perder: para não me perder.

 

- Gosto muito de falar contigo. Quem és?

 

Aos poucos, tudo aquilo que construí, com tanto sacrifício, foi-se desmoronando. Fui afastada do trabalho. Perdi amigos. Perdi a família. Perdi muito mais do que apenas a memória: perdi-me.

 

- Desculpa, minha querida filha. Como estás?

 

Cada dia que passa é um pouco de mim que se perde. Sinto-me agrilhoada com vergonha e medo dentro de mim própria. Definhando aos poucos. Apagando-me apressadamente com o passar do tempo.

 

- Isso é muito bom. Quando vai acontecer?

 

Os olhos das pessoas não conseguem esconder o que lhes vai no pensamento. Criticada. Incompreendida. Marginalizada. Incapacitada. Destituída de toda opinião ou decisão. Murmuram sobre o meu futuro como se não estivesse presente.  E eu luto, e se luto, com todas as minhas forças para me manter conectada ao presente. Estou a dar o meu melhor e é insuficiente. Vivo um dia de cada vez.

 

- Gosto muito de falar contigo. Quem és?

 

Olho para as fotografias e vídeos. Salpicos da vida que um dia foi minha. Se a vida se mede por memórias, nunca saberei se vivi.

 

 

https://misteladepalavras.blogspot.com/2019/10/salpicos-do-que-fui.html?m=1

A revelação


Liliana Rodrigues

12.11.19

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“O dia em que nasceste foi o dia em que a tua mãe finalmente morreu. Eu nada fiz para a salvar.

Os ventos da mudança começaram a soprar e ninguém os conseguia sentir. Não se estava preparado para o que aí vinha. As certezas que se tinham esfumaram-se no ar.

A vida reduziu-se à mera existência. Deu-se lugar a actos e palavras mecanizadas. Perderam-se as emoções. Os nossos sentidos limitavam-se a transmitir a informação do mundo ao redor. O cérebro processava a informação levando-nos a actuar por instinto: sobrevivência. Apenas isso, sobreviver.

A procura da causa revelou uma incómoda resposta: nós. Nós éramos a raiz do problema. A insatisfação. O imediatismo. O egoísmo. O egocentrismo (…). Perdemo-nos. Optámos por o caminho mais fácil; foi a nossa perdição.

A vida é um jogo. O jogo finito e o jogo infinito. Ganhar ou sobreviver. Jogámos o jogo infinito. Tivemos avanços. Tivemos recuos. Nunca deixámos de jogar. Era vital mantermo-nos no jogo. O caminho não é relevante. Relevante é onde nos leva esse caminho.

A vida coloca-nos à prova. Testa-nos. Nunca ninguém está preparado. A forma como encaramos os adventos na vida ditam o sucesso ou o fracasso. Só tínhamos um objectivo; reverter os efeitos. Foi isso que nos manteve vivos. Era para isso que vivíamos.

Os nossos instintos sobrepuseram-se a tudo. O improvável aconteceu. Como marionetas desajeitadas, presas por cordéis biológicos, dançávamos. Ilógico. Aconteceste.

Não idealizei um futuro contigo. Não sonhei nem fiz planos. Não me liguei a ti, como era suposto. Não havia nada em mim que me fizesse sentir qualquer tipo de emoção.

Responsabilidade. Não passou disso mesmo, o cumprimento de uma obrigação. Culpados. Todos fomos culpados. Ao contrário do que era apregoado não há fórmulas secretas. Na vida é preciso esforço, perseverança, dedicação e resiliência. Os possíveis atalhos conduzem-nos a situações complicadas. Consequências das quais não podemos fugir.

Poderia dizer-te que lamento. Que lamento toda esta situação; o teu sofrimento e o meu abandono. Na verdade, não lamento nada. Não sou capaz de o fazer. Apenas posso assumir a minha cota parte de responsabilidade em tudo. Apenas isso.

Não tenho medo que me julgues ou que me odeies. Não tenho nada para além deste corpo moribundo e os instintos que me mantém vivo. Nada mais do que isso. Resta-me esperar. Esperar por o dia em que finalmente esta forma de estar vivo acabe.

Não te posso pedir nada. És senhora da tua vida. Dona da tua vontade; se ainda a tiveres. Não me é licito pedir seja o que for. Faz o que entenderes.

Os pais têm como obrigação aconselhar os filhos. Os pais têm a obrigação de os alertar. É minha obrigação dizer-te que tudo o que desejares na vida, com disciplina e esforço, poderás alcançar. Foge do facilitismo e do imediatismo. Evita permitir que pensem por ti. Não permitas que te digam o que é melhor para ti. A vida é apenas uma e muito curta. Vive, sente, emociona-te. Vive a vida que queres e como queres: é simples. A simplicidade é o caminho. Sempre foi e sempre será."

 

 

Exerto do livro (Des)emoções

(à venda nas principais livrarias on-line)

O banco de jardim


Liliana Rodrigues

08.11.19

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(imagem retirada do Google)

Um velho está sentado sozinho num banco de jardim. O tiquetaquear do relógio irrita-o. O tempo não passa para quem tem todo o tempo. E ele espera, sozinho, por aquele momento. Os seus olhos mostram-lhe a vida a acontecer, mas ele não a vê. O mais cego é aquele que não quer ver; e ele não quer.

Os seus olhos já viram muito: demasiado. Já choraram tanto: excessivamente. O tempo tornou fosca e desbotada a cor dos seus olhos. Perdeu a esperança. Perdeu tudo o que havia para perder. Resta-lhe agora uns poucos anos de vida, que teimam não passar. Suspira.

E ele lá está, sentado no banco do jardim, sozinho à espera do que teima não vir. O vento sopra e as folhas caem, mais uma estação que passa; mais um adeus cada vez mais distante. Até isso o irrita: já se lhe é permitido todo o tipo de irritações. A humidade do ar adensa-se e gotículas de água batem no seu rosto seco pelo tempo. E ele espera. Continua a esperar.

O seu olhar fixa-se no nada. E nada é tudo o que ele sente ser. O adjectivo martela-lhe a mente tanto, mas tanto que se encrusta no ser. Tanto acaba por fazer mais do que o definir. A última sentença; a tão temida sentença antes de se cumprir a única certeza na vida.

“Palavras são como as cantigas: leva-as o vento” e ele já se deixou de ir nas cantigas das promessas ocas. Tem esperado, no mesmo lugar, dia após dia, mês após mês e ano após ano por quem teima em não vir. O tempo passa depressa demais para quem não tem tempo. A decepção fere-o mais que a própria sentença e ele levanta-se. Decide não esperar mais. Já não tem mais tempo para esperar. Morreu.

 

Todos os dias são dias


Liliana Rodrigues

04.11.19

imagesSXL67911.jpg(imagem retirada do Google)

Tenho algo para te dizer; há muito tempo que quero que saibas. Pensei nas mais diversas formas de te contar e imaginei todos os cenários que servirão como pano de fundo; quero que seja mágico, sabes. Nada pode falhar. Será o momento por o qual sempre sonhei; por o qual tu tanto anseias, eu sei, sinto-o em ti. Vou contar-te. Hei-de contar-te.

Decidi que vou acabar com os rodeios, com as meias palavras, com as subtilezas ao que quer tudo menos paninhos quentes. Desejo ferverosamente, loucamente, doentiamente e absurdamente fundir-me em ti; sentir-te em todo o meu corpo. Amo-te, sabes. Amo-te com tudo o que tenho e tudo o que tenho é teu. Dás-me tudo o que é teu?

Doí estar longe de ti. Ainda não to disse, mas sinto que também me amas. Sinto a vibração do teu corpo, o tremer da tua voz, quando estamos lado a lado. É assim que quero ficar contigo ao meu lado; hoje, amanhã e sempre. Amor, vem para junto de mim e acaba com esta minha dor da tua ausência. Vou contar-te; ai não que não vou. Hei-de contar-te, mas hoje não é o dia. Sabes, há dias para tudo e quero que seja no dia certo. Seria uma estupidez minha dizer-te no dia errado; uma imprudência mesmo.

Espero prudentemente e sensatamente para que o dia chegue. Ainda faltam uns meses, mas cá estou eu firme, esperando o momento certo. E tu, onde estás? Não me respondes às mensagens, logo assim que as mando, como fazias. Já não atendes o telemóvel com o mesmo tom alegre. Não te despedes da mesma forma com um “desliga tu primeiro”. Já nem te ris da mesma forma, despreocupada e ao mesmo tempo envergonhada, quando conto piadas mais secas que o deserto. Mas um dia, vou contar-te o quanto te amo; ai vou, vou.

Vi-te no outro dia na rua com um fulano. Pareciam muito chegados. Quem é ele? Respondes-me de forma fria e indiferente. Um amigo chegado como? Quão chegado é ele de ti? Hesito e não chego a perguntar. Não quero saber a resposta quando sei que ela vai doer; doer como uma ferida cheia de sal grosso, que penetra até ao mais profundo do ser. Uma ferida onde alguém colocou éter e álcool, tudo ao mesmo tempo. Sabes que dia é hoje? A pergunta sai a medo. Dizes-me que é catorze de Fevereiro: correcto. É o dia que esperei para te dizer o quanto te amo, mas já não haverá mais nenhum.

 

Eternidade da ilusão


Liliana Rodrigues

01.11.19

Resultado de imagem para campo santo

(imagem retirada do Google)

O vento sopra mais intensamente, as folhas secas caem no chão e a humidade do ar densa-se. Mais uma estação que passou. Mais um ciclo que se cumpriu. E o tempo passa. Passa a correr para quem anda distraído com a vida: distraído na vida.


Chuta-se tudo para amanhã na ilusão de se conseguir mais tempo. Mais tempo como? O dia não tem só 24h? O ano não tem só 12 meses? Vive-se assim, ludibriado com a esperança no tempo.
As primeiras chuvas começam a cair acalmando o pó da estação quente. A natureza prepara-se para o tempo frio: sossega. Não se ouve mais o chilrear eufórico dos pássaros e nem as cigarras frenéticas. Silêncio que só o vento e a chuva quebram; sinais da vida a acontecer.


E a vida acontece: para mim, para ti, para todos. Tudo tem um princípio e um fim. Tudo; é a lei da vida. as estações passam. Os anos passam. Tudo passa. Até eu. Até tu. E nos entretantos vai-se vivendo: existindo apenas.

Vive-se o engano de que o tempo não passa por nós; só lá fora. Em nós não. E há que fazer muitas coisas para sentir a vida a correr nas veias, mas não a passar: a correr. Uma maratona interminável. Uma ilusão tola. E o tempo passou; espelhado na mudança da estação.

O que ficou por fazer amanhã ainda lá permanece. Sonhos por viver. Sentimentos por expressar. Objectivos por alcançar. O tempo passa e não há nada que o faça parar. A vida eterna não existe; uma ilusão.

Mais um ciclo que se completa. Mais uma estação que passou, dando lugar ao frio intenso e fortes tempestades. Nem assim o homem acorda para a vida. Nem assim vê que o amanhã pode não chegar. Tudo o que ficou, para trás no tempo, permaneceu lá sem que o tirem enquanto há tempo.

Tantos abraços que ficaram por dar. Tantos amores que nunca chegaram a acontecer. Tantos sorrisos que ficaram escondidos, sem ver a luz do dia. Tantas gargalhadas que nunca foram ouvidas. Tantos objectivos por alcançar. Tantos sonhos por viver. Tantas vidas desperdiçadas no existir. Tanto, mas mesmo tanto, repousa agora na morte eterna. O campo-santo é agora o lugar mais rico da terra.

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