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Inquietações

Inquietações

Sem ti


Liliana Rodrigues

24.12.19

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A dor teima em não ceder aos efeitos da passagem do tempo. Foste para longe de mim e deixaste-me sozinha, a crescer sem o meu melhor amigo e protector. Mais do que laços de sangue, tínhamos laços de alma. Como se vive à falta de sangue e alma? Como se vive sem os sonhos que sonhamos?
Mais um Natal que se aproxima e, mais uma vez, finjo a aceitação inaceitável da tua ausência. Para onde foste sem mim? Dizem que és um ser celestial a zelar por nós, mas tornaste-te numa dor existencial ao levares um pouco de mim. Para onde? Nem sei. Finjo não querer saber.
Olho para a árvore iluminada e volto atrás no tempo: é por lá que a dor é mais suportável. Volto à casa onde me esperas eufórico, pronto para me contar as tuas últimas aventuras. E contas. Mostras-me os últimos tazos que conseguiste "papar" aos outros meninos. Digo-te com o desdém, tipico da idade, que tenho muitos mais que tu.
Jogamos? Vamos ver quem é o melhor. Gritam connosco interrompendo-nos a brincadeira. Os adultos são tão chatos, sabes?
Engoliamos, o mais rápido possível, o jantar para voltar à brincadeira. Os adultos falavam.
(seguro a lágrima que se forma)
Chegava a altura de abrir os presentes e eu sabia bem o que ia receber. Recebias presentes melhores que eu e invejava-te por isso. E o tempo passou e tu? Éramos inseparáveis, lembras-te? Inseparáveis. Então, para onde foste, que me deixaste esta cratera no peito?
Cresci sem ti. Tornei-me mulher. Tornei-me mãe de uma menina maravilhosa, deixa-me que te diga, que nunca chegaste a conhecer. Tu, congelaste no tempo e nos sonhos de uma vida que nunca chegaste a viver.
Percebo, agora passado tanto tempo, que tive durante alguns anos o melhor presente; tive-te na minha vida: um amigo, um protector, um irmão.
Agradeço-te por teres partilhado os melhores momentos da minha vida contigo. Contínuo à espera do dia em que te reencontrarei, porque, para mim, só estás num local distante, onde não posso chegar. Contínuas vivo e vais continuar no centro do meu coração.

Abro a porta e vou ser livre


Liliana Rodrigues

16.12.19

FilasTrânsito.jpg

(Imagem retirada do Google)

Avanço vagarosamente até à cidade que acorda, às três pancadas, do seu sono insuficiente. Veste-se, maquilha a cara ressacada e deixa-se embriagar pela ilusão, de uma vida com significado para alguém, que não ela, para suportar o que virá.

As buzinas acordam, de sobressalto, os distraídos que se deixam entorpecer por uma vida enfadonha. Arrastamo-nos, como caracóis, na cidade apinhada.  

Olho para o céu onde o sol espreita timidamente por entre as nuvens cinzentas, que ameaçam com chuva. Será certamente um dia complicado na cidade, vítima de um ritmo impiedoso imposto. Tudo e todos, dia após dia, contribuem para o aumento da dor que tenta, a todo o custo, camuflar com brilho e movimento.

 A terra gira à mesma velocidade que há milhões de anos e o tempo passa mais rápido do que, alguma vez, se imaginou possível passar. Quantas horas tem o dia?

Os pássaros voam, livre e indiferentemente ao que acontece. Os seus dias têm quarenta e oito horas e o meu nem doze tem. Suspiro invejoso. Quando foi que perdemos a liberdade? Sou escravo do consumismo e capitalismo que me corrói a alma. Vivo a correr numa roda viciada enquanto vou morrendo um pouco mais. O tempo desaparece no chão arenoso que me enterra em vida. Asfixio. Definho. Agonizo. 

Avanço, um pouco mais, no transito caótico sem ter por onde fugir. Quando foi que nos perdemos de nós próprios?

Inocência. Liberdade. Criatividade. Felicidade.

O transito permite-me abrandar, reflectir e reencontrar a verdadeira razão. É no meio da escuridão que se encontra a luz. É no meio da dor que se encontra o alívio. É no meio do caos que se encontra o equilíbrio. Olha que realmente; abençoado transito. 

Merda para esta vida. Aqui não sou feliz. Abro a porta do carro e vou ser finalmente livre. 

 

Mais eu


Liliana Rodrigues

04.12.19

mais eu.jpg

 

Pego na caixa e olho-a com desdém. Tiro um e enfio-o goela abaixo com um pouco de água. É difícil de engolir e não é pelo tamanho. O significado é que custa a aceitar, nem com toda a água do mundo se consegue, alguma vez, engolir. Raios me partam se, um dia, não deixo esta merda.

Mais um comprimido da felicidade. Mais um comprimido do bem-estar. Mais um comprimido para me drogar.

Em minutos, volto à vida padronizada e controlada que é o requisito para se sobreviver. Uma vida desinteressante e enfadonha que nos faz andar, numa correria, em círculos de onde não conseguimos sair. Trabalhar para sobreviver. Sobreviver, resistir ou viver acima de? Vive-se, cada vez mais, acima. Acima do que realmente é importante, do que traz felicidade e acima da essência.

Mais um comprimido e cada vez mais longe de mim. Anulo-me para continuar a aguentar.

A droga entranha-se e a dor é adormecida. O meu ser estilhaçado, pela tomada de consciência, é disfarçado através dos químicos. Estou dependente, da minha própria anulação, para continuar a existir.

Um dia, juro, que deixo este monte de bosta que me adormece em mim.

“Tens que ser forte e aguentar”. Não. Não tenho que ser forte e aguentar. Tenho que ser forte e manifestar. Manifestar o que dói, o que incomoda, o que me enerva e o que odeio. Manifestar os sonhos que tenho, o que é importante para mim, o que me dá prazer e felicidade. Manifestar-me sem opressão ou culpa. Manifestar-me livremente e expandir amor.

A cabeça dói, os olhos estão pesados e o cérebro não acompanha o movimento do corpo. Uma sensação extracorpórea atordoa-me e consome a pouca energia que tenho. E tomo mais um, só para acalmar a angústia e o desespero. O corpo revolta-se contra a mente. Fujo.

Fujo sem destino. Corro como uma louca sem rumo certo; isso pouco importa. Dizem que sou maluca, e depois? O que pensam é tão válido como uma lotaria dos anos 90. Na minha pele vivo eu e mais ninguém. Vou desistir.

Vou desistir de tentar ser perfeita a viver numa vida enfadonha. Vou desistir de me tentar acostumar com esta vida vazia. Vou desistir de caminhar ao lado dos demais e vou ser mais, muito mais, eu. 

Finalmente livre.

Beirã


Liliana Rodrigues

02.12.19

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O sol começa a esconder-se, ao fundo no mar, deixando um tom avermelhado no céu. O silêncio da penumbra atira-nos, por vezes e à rebeldia, para um estado mais introspectivo. Ao longe, as aves regressam aos seus ninhos procurando abrigo. Nós começamos a regressar a casa após mais um dia de trabalho.

Os finais de tarde de Dezembro são tão belos como mágicos. O frio do início da noite acalma o calor de um dia de correria desenfreada. Os pássaros recolhem ao ninho e nós aos dormitórios; sim, dormitórios ou julgavam ser mais do que isso? Não é mais do que onde se pernoita; não é mais do que um local de paragem limitada no tempo.

O lar, a segurança e o conforto, é onde o coração está. O que acontece quando o coração, sem alternativa, se encontra dividido? Onde fica o lar? Onde se encontra segurança, conforto, paz e felicidade quando o lar está separado por centenas de quilómetros?

A distância e a saudade aniquilam o conceito de lar; torna-se gelado e ventoso como o mais rigoroso Inverno. As temperaturas negativas quebram-nos por dentro desfazendo em mil pedacinhos o coração fragilizado de saudade. E a distância parece aumentar com o passar do tempo.

Hoje disseram-me que a minha casa é aqui, que tenho que aceitar, e viver com isso. Mas não se vive; nunca se vive com meio coração: sobrevive-se. Vai-se tentando sobreviver. Vai-se tentando não morrer. Vai-se vivendo a balões de oxigénio dados pelas videochamadas, telefonemas e trocas de mensagens constantes, para que não se perca o resto do coração que vive fora de nós.

A dor aumenta, a esperança diminui e, quando damos conta, perdemo-nos a meio da distância entre as duas metades de nós. Somos seres incompletos, com a plenitude de uma vida construída, longe do que conhecemos como casa. E as raízes, que nos prendem, não murcham nem secam e precisamos de lá voltar: sempre. Todas as vezes possíveis para juntar as duas metades do coração; para nos reencontrarmos a nós mesmos.

Podem tirar uma beirã das beiras, mas nunca tirarão as beiras da beirã.

Até breve meu ninho, meu aconchego, casa minha.

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