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Inquietações

Inquietações

Viseu, velha amiga


Liliana Rodrigues

30.01.20

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Voltamos a encontrar-nos, velha amiga. Passou tanto tempo desde a última vez que te vi, mas continua a parecer que foi ontem. O nosso olhar, fixo um no outro, começa um diálogo em surdina. E há tanto para falar; tanto para contar.

Tu estás na mesma e eu mudei tanto. Foi em ti que aprendi a dar os primeiros passos no que sou hoje. Foi em ti que sonhei o sonho de melhorar a saúde das pessoas. Foi em ti que os meus horizontes se alargaram. Foi em ti.

O tempo pode passar, mas a tua imagem, a tua essência, o teu cheiro e as tuas gentes permanecem intactos. E sinto que parte de mim te pertence, mas, tu, há muito que me deixaste. Parti.

Parti para terras quentes e distantes, deixei-te para trás, mas ainda fiquei em ti. Vou voltando para te rever; para me rever. Volto para encontrar a inocência de anos passados. Volto à capacidade de projectar um futuro melhor. Volto a sonhar, mas não volto sozinha. Parti só, mas volto acompanhada. E quero-lhes mostrar as tuas belezas e o quanto te amo.

Cresci; já não sou a pessoa que era há anos atrás. A vida tem sido como os teus caminhos; cheios de rotundas e velocidades controladas, com retrocessos e avanços acautelados. E refugio-me no teu parque do Fontelo onde encontro a paz para continuar. Subo até à tua Sé onde ouço as guitarras a chorar canções de amor e onde revivo a queima. Regresso ao Rossio onde me deslumbro com o teu brilho.

És para mim a cidade do meu coração; onde preciso voltar, onde me perco e volto a encontrar.

É bom rever-te, minha velha amiga. Viseu, cidade do meu coração.

Parabéns, idiota


Liliana Rodrigues

29.01.20

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(Imagem retirada do Google)

 

 

“O hotel está confirmado, tal como pediste, com jantar e spa incluído. Tem cuidado para que o teu marido não desconfie. Beijinhos”. Senti o sangue a gelar quando li a mensagem. Começo a ficar com dificuldade em respirar. Ouço zumbidos ao longe.

Não acredito que ele me tenha feito uma coisa destas. Como é que ela teve a coragem? Como é que eles me puderam atraiçoar desta maneira. O meu melhor amigo. A minha mulher. Raiva. Nojo. Ódio. Capaz de os matar aos dois e desfazer-me dos seus miseráveis corpos para nunca mais serem encontrados.

Mas como? Porquê? E os nossos filhos? Não pensaram neles? 

Eu que tudo fiz por ele: arranjei-lhe trabalho, apresentei-o à sua esposa, sou padrinho do seu filho mais velho e até gostava dele como um irmão. E ela? Dei-lhe o meu amor; todo o que havia dentro de mim e para lá de mim. Os caprichos que lhe satisfiz e voltaria a fazer de novo. Tantos sonhos sonhados juntos. A nossa menina, a nossa obra prima esculpida ao pormenor e concebida ao pormenor. Nem sabes o quanto te amo.

A porta de casa abre-se e tu chegas. Olho para ti e não sou capaz de te dirigir uma única palavra. O choque, o desgosto e a raiva são maiores que eu. Aproximas-te para me beijar. 

- Vai beijar com quem vais, amanhã, para o hotel. Já sei de tudo: de ti e de quem julgava amigo.

Perguntas-me, como quem foi apanhado em flagrante, do que estou a falar. É mesmo isso; foste apanhada em flagrante. Disparo palavras à mesma velocidade que uma metralhadora. Esfrego-te na cara que até as da beira de estrada são mais confiáveis que tu. 

Olhas-me, com olhos rasos de água, e entregas-me um envelope.

- Feliz aniversário de namoro, idiota.

 

Amor de outrora


Liliana Rodrigues

26.01.20

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(imagem retirada do Google)

 

Vi-te pela primeira vez num baile, estavas com os teus irmãos, e o meu coração bateu como louco. Quando ias à ribeira, lavar roupa, espreitava-te por entre as ervas altas e atrás das árvores. Não queria que pensasses mal de mim nem das minhas intenções, mas as tuas pernas eram mais perfeitas do que podia imaginar.

 

Tornei-me amigo do teu irmão, nem imaginas como foi difícil, tive quase a levar de tão chato que fui; sentia as pernas a tremer e coices no peito. Estava decidido a fazer o que fosse preciso para estar mais perto de ti.

 

Levei uma vez o teu irmão a casa e fiquei a saber onde moravas, nem imaginas a alegria que foi ver-te ali. Eu sei, eu sei. Parecia um parvo a rir-me sem motivos e a derrubar tudo à minha volta, mas não podia conter aquela euforia. Reparei na forma como me olhaste e nessa noite nem dormi, só a pensar em ti, a sonhar contigo, a fantasiar o que podíamos ser juntos. Ah, como foi bom viajar até ao nosso futuro.

 

Comecei a passar à tua porta e, sem que quisesses, via-te a espreitar por entre a janela. Decorámos o horário um do outro, encontrávamo-nos à mesma hora, na mesma janela e olhávamo-nos demoradamente. Tivemos conversas silenciosas que só nós ouvíamos.

 

Mudei de trabalho só para poder dar-te uma vida melhor. Eras a minha princesa e eu tinha a obrigação de te tratar como tal. Suporta-se tudo por quem se ama. Foi nesse momento que percebi que o que sentia por ti era amor, do mais puro e verdadeiro, comecei a desejar-te como minha mulher.

 

Foi numa noite quente de Verão que te convidei para dançar. O teu irmão mais velho meteu-se entre nós, com cara de poucos amigos, e perguntou-me quem é que era. A sorte, vê lá bem, é que o teu outro irmão já era muito meu amigo. Segurei a tua mão, como quem segura o mundo, coloquei a mão suavemente nas tuas costas e o meu peito explodiu de emoção. Valsiámos com a leveza de uma pena e, na cumplicidade de um olhar, juramos amor eterno.

 

Agora, que somos velhinhos, recordamos esses tempos, vemos fotografias e orgulhamo-nos dos filhos que temos. Crescemos juntos, lutamos juntos, choramos juntos e nunca desistimos. Amar é isso mesmo; sonhar, construir e multiplicar juntos.

 

Levanto-me, pego-te na mão, beijo-a - com o mesmo respeito de outrora - e valciámos. Os nossos corpos já não são novos, mas é o nosso amor que nos mantém vivos.

 

- Amo-te, princesa.

 

- Amo-te, meu príncipe encantado.

 

 

Vestida para ti


Liliana Rodrigues

23.01.20

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(Imagem retirada do Google)

 

Hoje vesti-me especialmente para ti. Talvez vás estranhar um pouco, mas acredita que te vou surpreender. Espero por ti no lugar do costume, como de costume e com algo diferente. Da blusa branca transparente sobressaem os seios arrebitados e redondinhos. As calças pretas, coladinhas ao meu corpo, revelam as curvas e o rabo bem empinado.

Os homens que atravessam o jardim não ficam indiferentes à minha presença; consigo ler-lhes o desejo de percorrerem-me as curvas para se despistarem a toda a velocidade. Coitados, não percebem que tenho alguém.

Tu chegas. Repreendes-me por estar assim vestida, mas sinceramente pouco me importa o que pensas, amor. Ainda assim, agarras-me violentamente, como sempre o fizeste, e as tuas mãos perdem-se na minha pele. Hoje não, otário.

Hoje vesti-me de forma diferente. Hoje vesti-me de amor próprio. Sabes o que isso é? Pois claro que não, filho de uma real meretriz. A culpa, assumo-a já, é minha, toda minha, por todas as vezes que deixei que me roubasses de mim. Mas isso acaba hoje. 

Vesti-me de orgulho da pessoa que sou e que tu sempre quiseste anular: chega. Sou muito mais do que aquilo que me fazias acreditar que era: apenas um corpo para te satisfazer, apenas uma para tu brincares, apenas uma para usares. Sou dona e senhora de mim. 

Em tempos temi ficar sem o teu amor, mas percebi que nunca o tive. Uma doce ilusão para tornar mais suave a dor de nunca ser o suficiente para ti. Não tenho mais medo. Acabou.  

E tu, minha besta, vai para o raio que te parta. Nem imaginas a vontade que tenho de te bater com um gato morto até ele miar. Vai morrer longe, otário, que até vivo tresandas a putrefacto. Não sou eu, és mesmo tu que não vales um chocalho.  

 

Sentado na praia


Liliana Rodrigues

16.01.20

 

 

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(Imagem retirada do Google)

Atraíste-me ao lugar só nosso, onde tantas vezes nos encontrámos para sonhar juntos, para me entregares, num envelope, a minha sentença de morte. Hoje vou morrer por ti, meu amor. Cravaste-me um punhal no peito e eu permiti. A ti sempre permiti tudo. Sempre fui a tua marioneta para brincares, como te desse mais prazer; era esta a minha forma de vida.

É na solidão que revivo a vida que sonhei um dia viver contigo. E vejo o teu corpo vestido com o meu. E sinto o teu sangue pulsar em mim.  E ouço o teu grito de prazer desesperando por mais. E somos só nós e esta areia, onde me sento agora, a viver o que poderia ter sido. Embalo a dor ao som da rebentação das ondas. 

Como podes ser tão cega? Que mania, a tua, de veres só com os olhos. Falas-me dele como se me tentasses vender um champô e nem vês como sou careca. Derretes-te em elogios de uma embalagem que nada tem no interior e cravas-te um punhal no peito.

Desfaço em mil pedacinhos minúsculos o teu convite, bem à tua frente, para que saibas que é desta forma que me deixas. E sento-me desfeito. As promessas que fizemos, os sonhos que sonhámos morrem à tua frente. Sais com a cara negra da tinta que te escorre no rosto. Vá. Isso. Foge para que não te veja a morrer também. Vai morrer longe que eu morro bem aqui.

Descobriste o homem da tua vida no dia em que o perdeste. E para sempre. Os cordões da marioneta partiram-se e ela desfez-se no chão em mil pedacinhos. Já não te permito mais nada. Agora, vai ser a marioneta da embalagem de champô que tanto publicitas. Eu morro em paz. 

Residentes na mesma casa


Liliana Rodrigues

08.01.20

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(Imagem retirada do Google)

Chegas a casa e beijas-me com a banalidade de uma acção mecanizada; gelado como um iceberg (que escondes na profundeza do teu ser? que tens submerso e oculto à vista?). Vamos cada um para a sua tarefa de final de dia. Há tanto para fazer.

Vejo-nos pela casa agarrados, um ao outro, como se dependêssemos disso para viver. O nosso amor é louco, o nosso amor é puro, o nosso amor é doentio: a dependência perfeita de ambos os corpos entrelaçados. Amamo-nos outra vez?

- O que é o jantar?
- Não sei. O que te apetece?
- Uma coisa qualquer.

E é isso que nos define agora, uma coisa qualquer: algo indefinido, algo sem identidade, algo assim assim, uma coisa insípida.

Vejo-te a agarrar-me sofregamente para saciar a fome de mim. Agarro-te em desespero para preencher o vácuo de quando não estás. E amamos. E rendemo-nos à evidência da nossa dependência demente da fusão dos corpos. E amar não é só espiritual, é carnal: é animal. Vamos amar-nos selvaticamente.

Onde foi que nos perdemos? Onde foi que nos deixamos de ser? Declaramos amor como daqui à lua e de volta, mas agora a distância que nos separa é daqui a Plutão e de volta. Somos estranhos conviventes na mesma casa, residentes debaixo do mesmo tecto, e partilhamos tudo menos a vida. Amanhã não contes comigo para jantar.

Assisto à nossa primeiro discussão. Foi tão bom, lembras-te? Gritámos como dois cães e amámo-nos como uns selvagens. Adoro quando as zangas terminam com os corpos despidos, suados e cansados de tanto amar. E se nos amassemos outra vez?

Finges estar interessado no meu dia-a-dia; conto-o, mas não me ouves. Fazes-me a mesma pergunta vezes sem conta e tenho monólogos gigantescos contigo. Estamos lado a lado, mas em mundos separados. Nunca me tinha apercebido de como estamos tão desligados de nós mesmos, tão frios e insípidos como um cubo de gelo. Oficializamos a situação?

Apercebo-me agora de como é tão fácil arrastarmo-nos até aqui como aceitar a separação. Fazemos o quê? Desistimos ou lutamos. Conformamo-nos ou agimos? Sinceramente, não sei o que fazer. Tens tempo na tua agenda para mim? Podemos ver com as minhas disponibilidades.

Conversamos tão civilizadamente que até mete nervos. Vamos mesmo ficar neste marasmo? Reage, pá. És o quê afinal? É mesmo isto que queres? Mas que merda de homem és tu? Recuso-me decidir sem uma discussão acesa como antes. Se é para fazer que seja em condições, seja qual for o desfecho.

A nossa respiração torna-se ofegante, os corpos dançam frenéticamente suados de tanto amar. E entrego-me à loucura de te amar sem limites, sem vírgulas, sem pudor, com tudo a que temos direito.

- Dorme bem, amor.
- Até amanhã, minha querida.

Vira a página


Liliana Rodrigues

02.01.20

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O tempo passa, depressa demais, e mais uma etapa se passou; mais um capítulo encerrado. Que mania a nossa de marcar o tempo pelos anos que passam; que estupidez. Pedimos desejos, fazemos resoluções, mas, poucos dias depois, tudo permanece igual e continuamos submersos numa existência de merda a que chamamos de vida. E passa mais um ano.

Queixamo-nos do mesmo, dias a fio, quando tudo o que era preciso era mudarmos as prioridades. Somos tão sábios como inconsequentes. E mais um ano passa e nós estamos iguais; enredados numa roda perversa que definimos como vida.

Tentamos virar a página para escrever uma nova história. Tentamos? A sério? Repetimos o discurso insidioso, ano após ano, para manter o estado ébrio da apenas existência. Fingimos até conseguirmos ou até entranhar bem a farsa: modelados por ela.

E se realmente tentássemos viver? Sim, e se tentássemos mesmo mudar a vida de que tanto reclamamos? Mas mudar custa: dói. Evitamos a dor como o diabo evita a cruz. E o diabo cresce dentro de nós e aniquila o ser; ardemos num fogo eterno da vida a passar ao lado.

A só existência, no que chamamos de vida, é a condenação ao inferno até à morte. Mas que miséria. Deixemo-nos de desculpas de trazer por casa. Deixemo-nos de queixumes baratos. Deixemo-nos de quereres sem acções. Comecemos a viver de verdade.

Que comece a vida a sério. Aquela que se vive em pleno: com tudo o que há para viver, com tudo o que é para experimentar, com tudo o que há para sofrer e com tudo o que há para amar. Que não fique nenhum bocadinho de vida para saborear. Vivamos intensamente. Esquizofrenicamente. Até ao mais profundo do osso. A dor fará parte, é uma verdade irrefutável, mas ela será sucedida pelo prazer; o prazer de ter vivido.

 

 

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