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Inquietações

Inquietações

Preso por um fio


Liliana Rodrigues

27.02.20

 

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(imagem retirada do Google)

 

O meu corpo jaze em vida sobre uma cama. Definho com o passar do tempo, que há muito deixei de contabilizar, resumindo-me a um esqueleto coberto por uma fina camada de pele.

Sou os restos mortais de quem já fui; da vida que já tive. Estranho-me e quem me conhecia já partiu; que injustiça. Sou uma alma presa por linhas de costura a um corpo vandalizado por tubos, cateteres e sondas. Adormecido para não sentir e para não reagir. Quero gritar a dor que não sinto. Quero reagir à falta de vida que tenho. Quero fazer o quê nem sei bem, mas quero e pronto.

As minhas visitas não me vêm ver mais. Estou para aqui jogado como o resto do que já não serve, do que não se quer, do que se esqueceu. Ouço-os no corredor a comentar a vida dos que seguem sem mim e dos que partiram deixando-me para trás. Limito-me a ser objecto de pena.

Celebraram mais um ano da minha vida, mas foram só eles. O seu entusiasmo era comovente e quase que chorei: pelo menos tive vontade. E alguém despropositadamente esquartejou-me a alma:

- Já está em coma há vinte anos.

Vinte anos? Porquê? Para quê? Será que alguma vez irei acordar? E se o fizer, como irei viver num mundo que continuou sem mim? Como irei viver com a perda de quem não me pude despedir, de quem não pude chorar? Haverá lugar para quem esteve morto vinte anos? O que tenho a perder? Deixem-me morrer!

E GRITO. O som fica preso na laringe e causa uma obstrução que nenhum tubo consegue ultrapassar. É a minha decisão. Sou eu que quero assim e ninguém me vai impedir. Ainda posso fazer alguma coisa. E faço.

Pip... pip... piiiiiiiiiiii

 

Medo


Liliana Rodrigues

20.02.20

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(imagem retirada do Google)

Vivia num pequeno satélite natural que orbitava Marte. Existia um lado iluminado e outro negro, como breu, do qual não me aproximava. Uma vez, sem querer, entrei na parte escura e o meu coração disparou. Sentia o sangue a ferver nas veias. Os músculos pareciam ter sido carregados de electricidade. A respiração acelerou e o ar custava a entrar. Não conseguia respirar. Nunca tinha tido aquela sensação, quase que de morte eminente. Corri, o mais que pude; o mais que as minhas pernas permitiram.

Quando parei não sentia o corpo, era como se o tivesse abandonado. Caí desamparado. Nunca mais iria lá voltar.

O tempo passou. Estava sozinho e aborrecido. Comecei a cantarolar para combater aquele sentimento. Algum tempo depois, percebi que a minha espécie de melodia era entoada do outro lado do pequeno satélite. Pus-me à escuta. 

- Quem está aí?

Ninguém me respondeu e continuei a ouvir a melodia. Queria muito saber se existia alguém do outro lado, mas tinha medo. E se existissem monstros? E se me fizessem mal? E se achassem que era esquisito? E se me rejeitassem? Não sabia o que existia do outro lado e isso metia-me muito medo.

- Quem está aí? – perguntei.

- Eu.

- Podes vir até à luz para te ver?

- Estou a ver as estrelas.

- Não sei o que isso é.

- Então vem ver. São maravilhosas.

- Tenho medo.

- O medo é uma reacção normal ao que não se conhece; ao desconhecido. Tu decides o que fazer com ele; ou o controlas ou o deixas controlar-te. Não deixes que o medo te impeça de ver as estrelas. 

Tinha medo, mas fui com ele de mãos dadas. Vi as estrelas e deixei de estar sozinho. 

Leva a bicicleta


Liliana Rodrigues

14.02.20

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(Imagem retirada do Google)

Heitor olhou e, escondendo-se, gritou. Pensava o gajo que eu não o estava a ver: cobarde. É típico, daquele bandalho, largar as bombas e fugir; não dar o corpo às balas. Os cães ladram porque têm medo, palhaço. Este cagarolas, como tantos outros, é tão foito quando ninguém o vê, quando se esconde seja atrás do que for. 

Ontem fomos beber uns canecos e jogar às setas: melhores amigos; unha e carne. Dissertámos sobre os variados temas. Discutimos o sexo dos anjos e descobrimos que são assexuados. Convergimos nas nossas divergências. E éramos quase irmãos. Foste um sacana e levaste-me a bicicleta; a minha bicicleta.

Agora escondes-te para me gritar a tua pequenez. Foste grande, pá, agora és minúsculo. Resume-te à tua insignificância e ultrapassa isso, afinal, foste tu quem ficou com a bicicleta; a minha bicicleta. 

Disseste-me que não sabes como aconteceu; que não querias. Não conseguiste evitar. Não se escolhe por quem nos apaixonamos ou quem vamos amar. E tens razão. Quando soube já andavas na minha bicicleta. Começas a ladrar, de longe, e foges quando me aproximo. Era eu que te devia difamar; achincalhar. Eu, não tu. Mas, verme miserável, escondes-te para tentar provar que és dono da razão, corajoso e respeitado; confirmado por estudos científicos de uma ciência duvidosa. 

Ficaste com a bicicleta, mas até me fizeste um favor. No coração ocupado por alguém não entra ninguém; se entrar, é porque não havia ninguém a ocupar. Não te escondas, homem. Dá o corpo às balas: defende com unhas e dentes: verte suor, sangue e lágrimas se for preciso: faz tudo por o que amas; quem amas. Mostra-te. Dá a cara. Oh, Heitor, não sejas estupor.

Fiquei sem a bicicleta, mas ganhei muito mais. Levaste-me a bicicleta e eu ganhei um avião: a tua irmã.    

Tornei-me leoa


Liliana Rodrigues

07.02.20

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(Imagem retirada do Google)

Perdi a conta às vezes que o meu filho perguntou porque estava a chorar. Olhava-me, com aqueles olhinhos castanhos benevolentes, com a angústia de quem acabou de ouvir uma doce mentira. Não sabe, nem vai saber. Digo-lhe que me dói a barriga, escondendo o enorme hematoma, consequência da última conversa acesa. Contorço-me com dor e procuro, naquele olhar, força para continuar. 

Ouço o meu menino a chorar. O coração dispara. Saio a correr, proferindo uma suplica para que o meu maior medo não se concretize. O sangue ferve-me nas artérias. Uso o corpo como o seu escudo enquanto o conforto nos meus braços. Sinto a pressão de cada pancada, no meu corpo, mas não dói. Ouço um ruído de fundo com as ofensas que me vai desferindo, mas não me afectam. A minha carapaça é forte; por ele, pelo meu filho. Entoou a sua música preferida para o acalmar, mas os episódios infelizes vão perdurar para sempre.

A noite silencia o rebuliço que acabou de acontecer. 

Deito-me ao lado do lobo vestido de pele de cordeirinho.

Vomito com nojo. Tenho de me organizar; tenho mesmo. Faço um telefonema sussurrado enquanto enfio coisas numa mala. O diabo acordou e prepara-se para mais uma ronda. 

Só dás a primeira, monte de merda.

Joga-se a mim como um cão enraivecido e bate-me, mas só dá a primeira; só a primeira. Agora é a minha vez, estupor. Leva por todas as vezes que me bateu e mais IVA. Os anos de maus tratos encheram de força os meus braços e mãos. Ficou esticado no chão. 

Arrumo o que falta e olho para o meu pequeno grande tesouro: seguro-o no colo. Sussurro-lhe que agora vai ficar tudo bem: e vai mesmo. Não importa o rumo ou direcção que vou tomar. Vamos ser felizes.

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