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Inquietações

Inquietações

Um amor maior


Liliana Rodrigues

27.03.20

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Fizeste anos e mais uma vez não pude estar contigo. Mais uma vez, tudo se resumiu a um telefonema e uma videochamada. Desta vez nem um postal, nem uma carta e nem um presente foram enviados pelo correio. Todos os planos que tinha feito escorregaram por entre os dedos para cair no abismo da incerteza. E dói.

Sempre tivemos os atritos e mal-entendidos, por sermos tão iguais, mas existe amor; um amor maior. Um amor que nem a distância, nem o tempo e muito menos um sacana de um vírus pode mudar. Um amor que não precisa de palavras para ser descrito. Um amor em que basta um olhar cúmplice para compreender o que as palavras são incapazes de traduzir. Um amor de pai e filha. E dói.

Não estivemos sempre assim tão próximos. Houve épocas em que a distância era maior do que esta que nos separa hoje. Houve ocasiões que não compreendi. Peço desculpa, as mais sinceras desculpas, por não ter compreendido que te sacrificavas para me dar tudo o que não tiveste. Peço desculpa por não entender que só lutavas para que a tua família tivesse sempre o melhor. Foram muitas as lutas que travaste, e que ainda travas, mas conseguiste. Cumpriste a tua missão na perfeição e nada nos faltou; nem o amor. O amor sempre esteve lá em tudo o que fazias. E dói.

Cresci e aprendi a ter a tua persistência e força. Aprendi contigo que a vida pode ser colorida, mas também ter pretos e brancos. Aprendi que o mais importante é valorizar o que temos e continuar a lutar pelos sonhos. Aprendi que amar é cuidar, proteger e lutar. E dói.

Dói estar neste impasse em que se vive. Dói não saber quando nos podemos voltar a abraçar. Dói e pronto.

A incerteza é a lâmina afiada que trespassa o coração. A angustia marca o ritmo em que se vive como um metrónomo. Asfixio na força que preciso de ter. Sufoco nas lágrimas que não consigo chorar. O medo vai corroendo como um ácido. Dói.

Dizes-me que vai ficar tudo bem e eu acredito. Afinal és o meu super-herói. Vemo-nos muito em breve.  

Amo-te muito Pai. 

 

Um dia sonhei...


Liliana Rodrigues

19.03.20

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Em cima do sofá, com um lençol preso ao pescoço, fazia pose heróica. Abanava a minha capa e tranquilizava as pessoas. Ia protegê-las a todo o custo. Era uma promessa. Um compromisso de honra.

- Nada temam. Estou aqui para vos salvar.

Num salto retirava a capa e desferia socos e pontapés lutando contra um grande vilão. Lutava com todas as minhas forças. Desenhava um círculo no ar e atirava-o contra o inimigo. O vilão ripostava. Era atingida. Caía. Levantava-me novamente e permanecia na luta. Mais um golpe e outro. Ameaçava fazer mal à minha família, mas isso só me dava mais força para lutar. Lançava-me contra ele com toda a força e raiva e caía novamente. Imóvel no chão encontrava força nas pessoas que contavam comigo. Vencia-o por fim. 

Hoje, muitos anos depois, dos sonhos inocentes de criança, não sou heroína, não tenho superpoderes e nem combato vilões. Não tenho capa nem um fato especial. Hoje visto uma túnica e umas calças brancas. Hoje não dou socos ou pontapés, mas luto para melhorar a vida das pessoas, para proteger e cuidar delas. Hoje, de certa forma, vivo o meu sonho.

Escondo-me atrás de jogos de palavras para combater os inimigos dentro de mim; os ziliões de pensamentos que me assaltam a mente. E luto. Continuo a lutar. Amanhã vou sair para a minha maior batalha; pensada ou vivida. Amanhã visto a minha roupa de mortal para lutar contra um novo inimigo que ameaça a minha família. Vou com a incerteza da duração da luta ou do regresso. Apresento-me ao serviço do próximo. Saio com o coração nas mãos, deixando para trás marido e filha. E, ainda assim, vou vivendo o sonho ingénuo de menina. Vou vivendo o sonho de salvar pessoas. Amanhã vou ser a melhor enfermeira que puder.   

(imagem retirada do google)

Covid 19


Liliana Rodrigues

16.03.20

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(imagem retirada do Google)

A vida dá voltas inesperadas e, de um momento para o outro, o que tínhamos como garantido foge-nos por entre os dedos. Há duas semanas vivia tranquila e a fazer planos para o futuro. Fazia contactos e preparava o lançamento do meu segundo livro. Hoje o único plano que faço é não fazer planos.
Este foi o fim de semana mais longo da minha vida. E não, não foi por ter começado a meio da semana. Na verdade o meu fim de semana teve dois dias; como qualquer fim de semana normal. Fui bombardeada de informação, normas, diretrizes e desinformações de todos os lados. Foi cansativo. Foi stressante. Foi esgotante. Sentia-me cansada e com dores no corpo. Dormi, dormi o máximo que pude na esperança de acordar numa realidade diferente. Mas não é assim que funciona, pois não?
É impressionante como um microorganismo tão pequeno pode virar um planeta inteiro de pernas para o ar. De um momento para o outro temos que viver em função de um vírus; de evitá-lo custe o que custar. De um momento para o outro temos que viver distantes debaixo do mesmo teto. De um momento para o outro temos que pensar tanto nos outro como em nós próprios. De um momento para o outro tudo mudou.
Perspetiva-se um longo caminho pela frente e temos de estar preparados para esta corrida. É bom que tenhamos em mente que será uma maratona e não um sprint. Só vence quem for resistente, resiliente e se souber adaptar. Talvez essa seja a solução: a adaptabilidade. O nosso adversário sabe, sem sombra de dúvida, adaptar-se. Seremos nós capazes de nos adaptar? De nos reinventar?
Vivemos uma guerra em que pouco sabemos sobre o inimigo, mas sabemos quem queremos e devemos proteger. Como em qualquer guerra é a união, a cooperação e a solidariedade que nos fará vencer. Mas será que estamos prontos para olhar para lá do nosso umbigo? Será que estamos prontos a ultrapassar as nossas diferenças? Será que estamos prontos a ajudar sem esperar nada em troca?
Estamos todos com medo; cada um manifesta-o à sua maneira. Todos nós estamos sob stress. Ė preciso manter a calma e a razoabilidade. É preciso bom senso para não desperdiçar recursos, que nesta altura são essenciais, e não ter a falsa sensação de segurança. Há profissionais de saúde disponíveis para esclarecer.
Todos somos importantes nesta guerra. Não soldados de primeira e soldados de segunda. Somos todos soldados nesta trincheira. Contamos com os que não estão na linha de fogo para nos ajudar. Não corram riscos desnecessários. Evitem aglomerados de pessoas. Respeitem as regras de restrição impostas pelos estabelecimentos comerciais. Lavem frequentemente as mãos. Só saiam quando estritamente necessário. Mantenham a mente ocupada e inventem formas de ocupar o tempo. Lembrem-se que é uma maratona.
É preciso bom humor e boa disposição para levar o barco a bom porto, mas não baixem a guarda. Um dia este ano fará parte da história.

 

As janelas


Liliana Rodrigues

11.03.20

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(Imagem retirada do Google)

 

No outro lado do vidro a vida acontece. Mais uma vez, no céu, a noite deu lugar ao dia e a chuva foi derrotada por o sol que ainda recupera da batalh travada. O dia começa instável como os primeiros passos de uma criança, vai ganhando a confiança de um adulto e vai morrendo como a vida que se esgota. 

A automotora rasga a paisagem verdejante transportando, os seus passageiros, pelas memórias de dias gloriosos da ligação ferroviária entre Viseu e Aveiro a bordo do Vouguinha. O som da chegada ao apeadeiro traz de volta à realidade do quotidiano. A máquina está grafitada com o desdém de quem não conhece a sua história. Que atrevimento.

Fecho as janelas e deixo-me envolver pelos sons familiares do vento, a brincar com as folhas dos pinheiros e dos eucaliptos, e da velha automotora. O vento beija-me as faces e a felicidade, de estar novamente em casa, invade-me. As janelas abrem-se e o mundo lá fora é um lugar seguro e feliz. E o que é o mundo senão um reflexo do que somos por dentro?

Dizem que devemos voltar ao lugar onde somos felizes. E volto. Sempre que possível. Sempre que a azáfama do dia-a-dia, da vida em contra-relógio, o permite. E permite tão pouco. Os anos passaram e muito se alterou, mas a paisagem permanece intacta. A automotora grafitada resiste às mudanças virtiginosas impostas por uma sociedade à pressa. A linha do Vouga foi encurtada tal como a vida o vai sendo: o paralelismo perfeito.

As janelas estão abertas e escorrem água. Bate uma saudade forte de tempos idos; de uma infância bem vivida, de muitos sonhos sonhados e de muitos cenários fantasiados. A automotora apita de partida e as janelas abrem-se. O que são os olhos senão as janelas da alma?

 

A cura da tristeza


Liliana Rodrigues

05.03.20

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Sei que estão ansiosos por conhecer a cura para a tristeza. Talvez estejam surpresos por ter sido uma mulher a descobri-la, mas garanto-vos que é apenas o resultado de muito trabalho e dedicação. A investigação foi rigorosa, todas as hipóteses foram testadas e cheguei a uma conclusão. 

A cura para a tristeza não pode ser vendida nem comprada. Sim, eu sei. Não estavam à espera desta informação. Talvez vos custe compreender. Sei que estão habituados a ter tudo fácil e instantaneamente, mas a cura não está à venda porque não se pode comprar. Não é nenhuma apresentação farmacêutica: não é comprimido, nem xarope, nem injectável. Não vem em frascos nem em garrafas nem embalada.

Acalmem-se, por favor, acalmem-se. Não me têm estado a ouvir. Não prestaram atenção. Estão demasiado distraídos para compreenderem, mas eu explico outra vez. A cura para a tristeza não é comprável. Não a podem ter já. Eu sei. Eu sei. Compreendo a vossa angústia e ânsia pela cura, mas parem. Ouçam-me.

A tristeza que sentem tem solução e é tão simples que até parece estupido. Sim, é fácil, é barato e dá milhões. A cura não é a alegria, esse é só o produto final. A cura está na aceitação do que não se pode alterar. A cura está na gratidão do que se é, do que se tem e do que se vai alcançar. A cura está no amor acima de tudo; apesar de tudo. A cura está na capacidade de se deixar deslumbrar pela simplicidade da vida. A cura está no viver cada dia como se fosse o último e ao mesmo tempo o primeiro. A cura está em viver. Mas viver para além das barreiras impostas. Viver sem medos. Viver sem remorsos. Viver plena e intensamente. A cura está dentro de vós.  

 

(imagem retirada do Google)

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