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Inquietações

Inquietações

23
Abr20

Reflexo no vidro

Liliana Rodrigues

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(imagem retirada do Google)

Olho a imagem que o pedaço de vidro me reflete. Não consigo compreender o que está diante de mim. Como é possível tanta dor e tanta angustia? Como? Como é possível existir tanta gente que sofre? Como é possível alguém aguentar? Como é que se sobrevive ao que se vive? Mas não há Deus justo neste mundo?
Fecho os olhos e sacudo a cabeça, como se afastasse estes pensamentos, mas é em vão. Sinto um sabor amargo, a boca fica seca e procuro um pouco de água para beber. Nem uma única gota de água disponível. Engulo em seco a minha raiva; a minha frustração.
O nó na garganta incomoda e dificulta a respiração. Levo a mão ao pescoço como que a tentar aliviar a obstrução que se intensifica. Tento controlar a respiração antes que desmaie. Olho de novo para o vidro. Observo.
Vejo a imagem de três crianças a descer a rua. Vêm a conversar entre si, duas delas abrandam o passo e, quando a terceira fica à sua frente, puxam a mochila. A criança desequilibra-se e cai no chão. As duas crianças riem e riem e não a ajudam a levantar. A imagem desvanece.
A sala está cheia de pessoas que aguardam a reunião. Duas delas cochicham entre si. Olham com desdém para alguém no lugar da frente. O director chega e cumprimenta essa pessoa. As outras duas tecem comentários injuriosos e invejosos, espalhando boatos a quem está à sua volta. A imagem é sucedida por outra.
Alguém trabalha afincadamente num projecto extremamente importante para a recuperação da empresa. Trabalha tanto que não tem tempo para a família nem para si próprio. É um projecto inovador, ambicioso e que irá salvar a empresa. Pede a um colega que dê uma vista de olhos antes de o apresentar à direcção. Três dias depois o colega é promovido com a apresentação do seu projecto. A imagem é substituída pelo meu reflexo.
O que se faz quando se é confrontado com a realidade? Com a triste realidade humana? Qual é o gosto? A que sabe?
Nascemos seres de luz e com o tempo vamos deixando de brilhar. Somos seres livres desde a nascença e com o tempo tornamo-nos escravos das nossas escolhas, das nossas atitudes, de nós mesmos. Nascemos a saber amar e com o tempo desaprendemos.
Como é possível tanta dor e angustia? Como é possível mudarmos tanto a nossa natureza? Como é possível procurarmos a culpa fora de nós, quando ela está dentro? Como é possível sermos tão cegos?
A imagem que vejo é mais do que o meu reflexo. É a resposta mais difícil às minhas perguntas mais fáceis.

15
Abr20

Fundo preto

Liliana Rodrigues

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Numa qualquer noite de abril a água batia violentamente contra as janelas, o vento uivava continuamente e os relâmpagos intimidavam o céu. Ela, sentada à mesa, preparava-se para colorir uma imagem. Espalhou os marcadores e os lápis de cera. Olhou as cores. Olhou o desenho. Não sabia por onde começar. Não sabia que cores escolher.
O seu rosto estava fechado, indiferente ao tempo que fazia lá fora. Indiferente ao que acontecia à sua beira: ensimesmada. Uma tempestade de emoções acontecia dentro de si sem que nada transparecesse. Uma tempestade impiedosa que a fustigava violentamente. Lutava para sobreviver. Pegou no marcador amarelo e começou a pintar.
Aos poucos o desenho foi-se enchendo de cor. Cada vez estava mais agradável à vista. Era uma imagem bonita, cheia de cor e de vida: feliz. Ela, continuava compenetrada no traço, na perfeição da orientação e harmonia da cor.
O seu rosto colava-se ao desenho e a sua alma afastava-se dele. Lá fora tinha parado de chover e as nuvens deixavam as estrelas espreitar. Escolhia as cores e pintava minuciosamente ao som dos seus trovões. Queria gritar. Queria atirar tudo no chão. Queria chorar. Queria fugir dali. Escolheu outra cor e continuou.
Os pensamentos rasgavam violentamente o seu céu. As emoções escorriam e batiam desgovernadamente contra si. O som da colisão contra o seu corpo era ensurdecedor e simultaneamente inaudível. Pintava, só, numa noite gelada de abril.
Que bonito estava o desenho, digno de uma qualquer galeria de arte. O seu rosto não se abriu uma única vez; inexpressivo. Indiferente. Observou-o. Faltava o toque final. Faltava pôr a sua assinatura.
O tempo, debruçada sobre a mesa, começava a massacrar as costas, mas essa era a menor das suas dores. O seu interior travava uma luta injusta contra si próprio. O seu interior despedaçava-se à medida que coloria. A dor física não dói mais do que a dor da alma. A dor física acalma-se com medicação a dor de alma não. Não podia tomar o analgésico para a sua dor; não estava acessível. Rendeu-se à dor.
Assinou da única forma que sabia e podia: com a alma. Uma aparente harmonia de cores num fundo preto.

11
Abr20

Palavras em tempo de covid19

Liliana Rodrigues

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(Imagem retirada do Google)

Abomino e desprezo palavras desprovidas de conteúdo. Palavras insidiosas que são ditas sem alma. Vamos ficar bem, diz-se por aí. Quem é que vai ficar bem? Quem é que fica bem depois de perdas irrecuperáveis? Quem fica igual depois de tudo isto passar?
Quando o covid acabar. Quando acabar? Será que acaba? O que acontece depois? Como seremos depois? Estas são as perguntas que devem ser feitas e para as quais precisamos de respostas.
As palavras devem agora, mais do que nunca, ser empregues da maneira certa: com alma, com garra, com intensão, com propósito. Usemos as palavras para expressar verdadeiramente as emoções, sem medos ou contensões. Com a ousadia de quem não tem nada a perder. Com a pujança de um adolescente. Com a simplicidade de uma criança.
Quando é que nos deixámos domesticar pela adultice? Quando é que permitimos as complicações na nossa vida? Que estupidez.
Não vamos ficar todos bem, não. Temos que ficar todos bem. Pode até soar igual, mas não o é. As palavras têm força e somos nós que a damos. Vamos dar as palavras a força que elas merecem. Vamos usá-las com intenção.
Querem encontrar a força necessária para enfrentar esta guerra? Não usem palavras vazias. Usem as palavras que vêm da alma. Usem-nas para vos dar um rumo nestes tempos de isolamento social. Usem-nas para expressar tudo o que está dentro de vós; até à loucura. Sem meias palavras. Sem merdices. Sem optimismos despidos de ser.
Temos todos que ficar bem para quando acabar. Temos que ficar bem porque ainda há muito para amar. Ainda há muito por sonhar. Ainda há muito por conquistar. Ainda há muitas aventuras por correr. Ainda há experiências por viver. Ainda há lições por ensinar e aprender. Ainda há oportunidades por agarrar.
Temos que ficar bem. Porque quando acabar ainda há vida para viver.

04
Abr20

Graças ao vírus

Liliana Rodrigues

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“se a libertação não está em mim, não está para mim, em parte alguma.” (Fernando Pessoa)
Neste blog são poucos os textos pessoais que escrevi, mas é chegado o tempo.
Nos últimos dias tenho feito uma viagem às profundezas da mente; do meu ser. A liberdade de poder visitar-me, saindo de mim e voltando, só foi possível, ironia das ironias, graças à pandemia. E é curioso como algo tão destrutivo pode, ao mesmo tempo, ser tão construtivo.
O quotidiano de uma vida agitada faz tanto ruído em nós que deixamos de ouvir. É com o abrandar da vida que o ruído diminui e damos de caras com nós próprios. As perguntas começam a tomar conta da cabeça e fica-se inquieto. Existem dois caminhos a seguir ou desvia-se a atenção para outro lado ou rende-se à inquietação e embarca-se na viagem.
Dou por mim, imensas vezes, talvez vezes demais, a pensar em qual o sentido. Qual o sentido para tudo isto? Qual o sentido da vida? A cabeça dói de tanto procurar as respostas: lateja. Quando tento chegar a uma conclusão surgem mais perguntas. Quem sou? Que faço aqui? Quem quero ser? Para onde quero ir? A angustia materializa-se na dor física de um corpo doente da ausência de si. Treme.
Baixo os braços em sinal de rendição aquilo que não consigo encontrar: respostas. As lágrimas caem sem que lhes tenha dado autorização. Mas o mais profundo do ser não precisa de autorizações nem ordens especiais. Precisa de silêncio, das distrações mundanas, e de rendição do eu.
É quando me rendo e anulo o meu eu que me torno mais eu. É na redição que se encontram as respostas que sempre procurámos. É na rendição que me curo de mim mesma. Renuncio para encontrar a liberdade.
Renuncio ao mundo que me consome e desgasta. Renuncio à escravidão que impera. Renuncio ao superficial e efémero. Renuncio às ilusões e mentiras contadas e difundidas. Renuncio ao sofrimento e à dor. Renuncio ao padronizado. Renuncio à imitação barata. Tal como dizia Pessoa: “A renúncia é libertação.”
Encontrei a liberdade de ser e para ser. Não me escondo mais, atrás de eufemismos e das palavras, camuflando o que sou. Sim, estou a sofrer com toda esta situação. Sim, estou a sofrer com o distanciamento de quem mais amo nesta vida e, quem sabe, nas próximas vidas. Sim, choro compulsivamente quando me dói mais. Sim, sei qual é a minha missão, o que tenho que fazer pelos outros e para proteger quem amo. Sim, sou humana. Sim, sou livre.
Observo-me à distância de quem narra uma história. Compreendo-me. Renuncio ao que achava. Liberto-me do que me agrilhoava. Misturo-me no amor que habita em mim. Conheço-me agora.

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