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Inquietações

Inquietações

28
Mai20

O ódio é o ópio

Liliana Rodrigues

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Sim, perdi a esperança na raça humana que de humana começa a não ter nada. Entram-me pelos olhos dentro, como balas perdidas no meio de um tiroteio, imagens de uma crueldade indescritível. Um homem a ser asfixiado em via pública em frente a toda a gente, sem que o seu homicida se compadeça por um milésimo de segundo.
Perco a esperança na raça humana, que se diz a espécie mais evoluída no reino animal, quando os actos de violência e de homicídio são o pão nosso de cada dia. O respeito pela vida perde-se a cada hora que passa, confesso que talvez esteja a exagerar e seja a cada minuto que passa.
Tira-se a vida a uma pessoa com a mesma frieza que se coloca o lixo no contentor.
Qualquer motivo é válido para ceifar uma vida, como se de uma erva daninha se tratasse. Escondem-se atrás de desculpas insidiosas como se ligitimassem a monstruosidade que fizeram. Desencadeia-se a revolta e o desprezo nas pessoas.
As vozes fazem-se ouvir. Insurdecedoras na sua indignação e raiva. E cresce. Cresce. Vai crescendo cada vez que é noticiado o acto homicída. O ódio é o ópio no coração que não tem amor. Envenena e transforma-o. Torna-nos, também a nós, em homicidas quando lhes desejamos a morte.
Perdi a esperança no ser humano. Já se morre à frente das câmeras sem que nada seja feito. "É tão ladrão o que rouba como o que fica à porta", já dizia a minha avó: tem razão. É tão homicida o que mata como o que vê e se cala. O que sabe e cala é homicida também. O que vê e desvia o olhar é homicida também. Vivemos num mundo de homicidas. Matamos diariamente a nossa própria espécie.
Também matamos quando denegrimos, quando ofendemos, quando diminuímos, quando violentamos verbal e psicologicamente.
Perdi a esperança num mundo onde todos vivam livres e felizes. O ódio é o ópio, mas o amor é o antídoto. Que não se perca a capacidade de amar para não se perder a esperança.
Talvez ainda haja esperança.

 

(Imagem retirada do Google)

18
Mai20

A lição da roseira

Liliana Rodrigues

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No céu, o sol começa a perder a sua força. Uma roseira, num ponto alto, balança as suas folhas ao sabor do vento com o mar como pano de fundo, como se estivesse a preparar-se para o espetáculo do pôr do sol. Os seus lindos botões dançam ao som do chilrear dos pássaros. As suas flores emanam, das bailarinas pétalas, um aroma doce e apaziguador. O tempo parece abrandar: pára.
Por breves momentos perco-me a olhar a roseira. Sou assaltada por pensamentos, preocupações e planeamentos para o dia que aí vem. Na minha mente, uma tempestade violenta rouba o prazer do que está diante dos meus olhos. A minha mente agita-se freneticamente. O tempo volta a passar rápido demais.
A roseira permanece serenamente a contemplar o sol cada vez mais próximo do mar. As suas flores ganham uma nova beleza com a diminuição da intensidade da luz. Páro para observar e, desta vez, observo.
Os pensamentos voltam em força, mas ignoro-os procurando pormenores no cenário á minha frente. Aproximo-me da roseira e sento-me no chão.
Os seus caules são cravejados de espinhos, cerrados e quase impenetráveis, dos quais emergem folhas, umas mais viçosas que outras. Delicadamente protegidas pelas sépalas, as coloridas e aveludadas pétalas sobressaem dando uma beleza inconfundível à planta espinhosa.
Ouvi muitas vezes dizer que as mais belas rosas têm os seus espinhos. Talvez a vida também assim seja. Talvez o segredo para uma vida plena e realizada esteja cheia de adversidades ultrapassadas. Talvez a felicidade e a realização pessoal esteja para lá dos obstáculos e dos problemas. Talvez o segredo seja aceitar as dificuldades e superá-las em vez de as tentar eliminar.
Reflecti durante uns minutos sobre o paralelismo que tinha acabado de fazer e na coerência do que estava a pensar. Olhei a roseira.
Havia na planta flores já velhas e quase sem pétalas. Algumas folhas estavam secas ou comidas dos caracóis. Os botões não tinham todos a mesma beleza. A planta não era harmoniosa como inicialmente parecia. Detive-me nos detalhes. Observei pormenorizadamente a roseira. Nada me escapou.
Tudo me escapou. O pôr do sol tinha terminado. Perdi demasiado tempo a olhar para os detalhes e deixei escapar a perfeição do momento no seu todo. A minha atenção ficou perdida com as características da roseira e o grande espetáculo passou-me ao lado.
A minha atenção prendeu-se nos detalhes e isso impediu-me de desfrutar, mas à roseira não. A ela pouco importava com que roupa eu estava vestida, se tinha rugas ou borbulhas na cara, se estava penteada ou se exibia um penteado novo. Para ela só importava estar ali, a viver a sua vida e a desfrutar da vista.

 

04
Mai20

Quando te voltar a abraçar

Liliana Rodrigues

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Os teus braços envolvem-me e deixo-me adormecer no teu calor. Estou com frio. Estou assustada. Ouço barulho á minha volta, muito barulho, que me deixa inquieta. Ouço a tua voz, ouço o bater do teu coração e mais nada importa.

Chego a casa, meio a choramingar, corro para o quarto. Segues-me. Encontras-me deitada sobre a cama a chorar. Não quero falar sobre o que aconteceu. Respeitas e abraças-me com amor. Começas a colar, delicada e pacientemente, os pedacinhos do meu coração partido. Descanso ao som do bater do teu coração.

Com uma quinzena de anos já me julgo gente graúda. Não quero mais ser tratada como uma criança. Exijo respeito. Exijo ser ouvida. Exijo viver a minha vida. Exijo. Exijo. Exijo. Sou um mundo de opiniões, reivindicações e de projectos. A medo vais abrindo as asas para que eu possa voar. Afasto-me uns metros e caio, mas tu não me deixas tocar no chão. Aconchegas-me nas tuas asas: descanso com o som do teu coração.

Diz-se, por aí, que me tornei adulta e pronta para me fazer à vida. Olho para o canudo. Olho para ti. Tenho que tomar uma decisão e lutar pela vida. Vou para longe cheia de certezas e tu ficas cheia de inseguranças. Os primeiros anos até parecem fáceis. Diziam que a vida era dura, mas que exagerados. Espalho-me ao comprido e dói. Dói tanto que fico despedaçada; estilhaçada. Choras à distância nos entretantos em que me tentas consolar. Não tenho o calor do teu abraço nem o som do teu coração.

Aprendo a colar o coração estilhaçado sozinha, mas falta uma ou duas peças. Não tenho dúvidas que farias muito melhor. Sempre tiveste a capacidade de fazer tudo perfeito. És perfeita. 

Encontro  a pessoa que completa, com as peças que faltavam, o meu coração. Nasce um novo ser. Estás mais feliz do que uma criança no Natal. O teu coração bate mais forte que nunca. Segura-la nos teus braços e o som familiar do teu coração acalma-a.

Não nos abraçamos tantas vezes como queremos. Não nos podemos abraçar como queremos. Mas quando nos abraçamos o mundo pára para nos ver a sincronizar corações. Pára para ver o espaço temporal a ser relativizado: encurtado, suprimido. Pára para ver que não há tempo nem distância que diminuam o nosso amor.

Quando te voltar a abraçar vou-me aconchegar no teu calor e sossegar com o bater do teu coração. Vou dizer-te o que já sabes, mas que nunca é demais dizer. Amo-te, mãe.

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