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Inquietações

Inquietações

27
Jul20

Era do medo

Liliana Rodrigues

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Partilho convosco um pensamento. Tenho ouvido inúmeras vezes, das mais diversas formas, a manifestação de medo.

O medo é uma reacção natural que induz o estado de alerta. Em tempos, foi o medo que nos manteve vivos. Sobrevivemos graças a ele. Agora vivemos a era do medo e somos dominados por ele. Não acreditas? Pensa bem.

Começa nas pequenas coisas e vai-se agigantando. Levantamo-nos com medo. Medo de nos atrasar. Medo de perder o emprego. Medo de perder bens materiais. Medo de perder pessoas que amamos. Medo de perder a saúde. Medo de não ter tempo. Mas há um medo pior. Um medo que nos acorrenta e esse, sim, mete medo.

Vivemos com medo da opinião dos outros. 

A nossa vida é pautada por o medo do que possam pensar de nós, da rejeição e do ridículo. Escondemos debaixo do tapete a pessoa e as ideias que temos. Calamo-nos. Acomodamo-nos. Limitamo-nos. 

Deixamos que o medo catalise inseguranças.   

Moldamos a nossa maneira de ser para nos encaixar em modelos de vida e pessoas perfeitas. As nossas ideias mudam conforme a direcção do vento: há que encaixar em algum lado. Estamos em todos os grupos, mas identificamo-nos com poucos. Há uma legião de conhecidos, mas tão poucos amigos.

Olhamos ao espelho e não temos o corpo perfeito, a cara mais bonita e o cabelo mais saudável. Observamos de longe a nossa vida e está longe de ser a vida de sonho. Compramos os sonhos dos outros e assumimo-los como nossos. Nada está bem. Tentamos a todo o custo fingir o que não se é, o que não se tem e o que não se quer. Não estamos bem. Incompletos.

A ansiedade aumenta. Vive-se em sobressalto constante. Será agora que me vão ridicularizar? Será agora que vão rir das minhas ideias? Será que se vão rir dos meus sonhos? Será agora que descobrem que não sou quem pensam? Será que… 

Sente-se um vácuo no peito e, às tantas, já nem sabes quem és.

Se me perguntares como se domina o medo, digo-te que és tu quem tem que descobrir. Cada pessoa tem que se encontrar a si mesma. Amar-se. Respeitar-se. Conhecer-se.

Cada pessoa escolhe o que quer ver no outro. Isso diz muito da pessoa que é, mas nada tem a ver com quem és. É problema do outro e não teu.

Não sou o que escolhem ver de mim. Sou o que sou. O que pensam ou dizem não é problema meu. Não está em mim, está nas outras pessoas. Não preciso de provar nada a ninguém, senão a mim própria. Não vivo mais com o medo do julgamento, da rejeição ou do ridículo. Aceito críticas construtivas e filtro opiniões. Elaboro a minha opinião e decido se a partilho ou não. O que não acrescenta valor, destrói. 

 

(Imagem retirada do Google)

20
Jul20

Talvez fosse melhor ter ficado pelos animais

Liliana Rodrigues

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(imagem retirada do Google)

 

Há uma pergunta que, volta meia volta, vem à minha cabeça. E se Deus tivesse ficado só pelos animais? Antes que me trucidem já, deixem-me dizer que acredito em Deus. Podem escolher ler até ao fim ou ignorarem e irem ver outra coisa.

Deus criou o Homem para reinar no jardim do Éden e pediu apenas uma coisa; uma coisinha muito, muito simples. Tudo o que o Homem tinha que fazer era alimentar-se de todas as árvores menos uma. A sua curiosidade fez com que andassem ali á roda. A observar. A cobiçar aquele fruto apetitoso. Depois aparece uma serpente. A inveja por ser como Deus falou mais alto e pronto, o resto é história.

Ah, mas foi culpa da serpente. A serpente foi só a desculpa ideal. Ah, mas foi culpa da mulher. Talvez por a mulher se sentir atraída por objectos reluzentes. Sei lá eu. Talvez por ser quem estava ali naquele momento. Isso não interessa para agora.

A verdade é que foram a cobiça e inveja que fizeram o Homem desobedecer. A partir dessa altura tudo o que havia de mau no íntimo do Homem emergiu. Ele começou a matar e nunca mais parou. Temos muitos exemplos na história da crueldade e maldade do Homem.

Mas os animais também são maus e matam-se uns aos outros. Verdade, mas há que ter duas coisas em conta. Primeiro são maus quando se sentem ameaçados (quem nunca?). Segundo matam-se uns aos outros para sobreviver. Nós matamo-nos uns aos outros maioritariamente por maldade. Nós matamos por inveja, por vingança, por orgulho, por prazer e por sede de poder. Qual é o animal que faz isto aos outros? Qual é o animal que faz isto à própria família?

Somos uma espécie evoluída, ou éramos para ser, mas de evoluídos temos pouco. Matamos animais por prazer de os ver sucumbir e lhes retirar o pêlo ou marfim. Deixamo-los em agonia e viramos as costas todos orgulhosos. Matamos aos poucos com maus-tratos e negligência, só porque não obedecem ou não temos tempo. Matamos quando lhes viramos as costas e os deixamos morrer carbonizados num incêndio florestal.

Os animais viviam tão bem sem nós. Eles não precisam do Homem para nada, mas o Homem precisa deles. Precisa para se conectar à natureza, para receber amor incondicional e sincero. Precisa para perceber que o que nos faz feliz não custa dinheiro, que está nas pequenas e simples coisas da vida. Precisa de perceber que a Vida é um direito de todas as criaturas e é nosso dever protegê-la e respeitá-la; já que somos a espécie mais evoluída.

Somos uma praga para o planeta, sugando-lhe todas as reservas e esgotando todos os seus recursos. Poluímos o ar, a terra e a água. Consumimos, consumimos. Desperdiçamos, desperdiçamos e desperdiçamos.

Talvez tivesse sido melhor se Deus tivesse ficado só pelos animais. Os animais não têm consciência. Nós temos, mas será que a usamos com a frequência que devíamos? Penso que está na altura de repensarmos todos os nossos actos enquanto espécie dita evoluída e mudarmos o rumo da história.

 

 

13
Jul20

O pôr do sol sobre um mar de telhados

Liliana Rodrigues

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Consegues ver a beleza de um pôr de sol? Não estou a falar do pôr de sol bonitinho sobre o mar. Aquele que nos corta a respiração e nos deixa maravilhados com dias felizes. Não estou a falar desse.

 

Estou a falar do pôr do sol que ninguém gosta. Daquele que só muda a cor do céu e que não tem nada de extraordinário,mas que é, na verdade, extra ordinário. O pôr do sol mais comum de todos e que por isso mesmo se torna tão espetacular. Já descobriste qual é?

 

Ainda não? Será que és assim tão distraído? Não consegues ver?

 

Só o que está fora do quotidiano te maravilha. Só o que é diferente faz o teu coração palpitar de emoção. Anseias por uma vida perfeita sem saber o que isso é realmente para ti. E perdes.

 

Sim, perdes muito. 

 

Quem não tem a capacidade de se deixar deslumbrar pelo comum está morto em vida. E sim, é possível morrer em vida. Quando se vive asfixiado num contra-relógio, já se está morto sem saber. Já se morreu em vida quando a mente e o espírito estão amargurados com o que não se pode controlar. 

 

Morreste quando ficaste preso ao um passado que não volta. Morres quando vives num futuro que nunca irá acontecer. Não me intrepretes mal. Não disse que era errado planear e sonhar com o futuro. Não podes viver lá morto em vida, conformado e acomodado á morte que vives hoje. 

 

Vive o presente como ele é. Desapega-te do relógio, da amargura e da ansiedade. Vive o hoje, o aqui e o agora. E deixa-te fascinar com a magia das pequenas e despresadas coisas comuns. Vive, não te deixes morrer em vida.

 

Aprecia o pôr do sol sobre um mar de telhados.

09
Jul20

Fui livre e não sabia

Liliana Rodrigues

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Olho para o relógio e o tempo, esse filho de uma real meretriz, teima não passar. A ânsia atira-me para a boca do lobo e não tenho por onde fugir. Aguenta e não chora; se chorar que seja sem ninguém ver. Sê forte e conforma-te; és escrava do tempo.

Vivemos na ilusão de que somos livres. Nascemos livres, sim senhor, mas tornamo-nos escravos do tempo. Que ingénuos que somos. O tempo controla-nos, subjuga-nos e acorrenta-nos. A vida acontece enquanto a areia da ampulheta vai caindo. Se nos for concedida a carta de alforria, podemos viver os entretantos livremente.

E o tempo não passa. E ainda não posso ser livre. E ainda não chegou o tempo. E a ânsia desespera-me.

Quero falar com o senhor do tempo. Quero reinvindicar a minha liberdade. Quero falar-lhe de coração para coração. Quero que ele me ouça e tenha misericórdia de mim. É só uma palavrinha, senhor do tempo. Posso falar consigo?

Dirijo-me a ele com toda solenidade que exige o momento; há que mostrar respeito embora o meu peito arda de raiva. Apresento-lhe os meus argumentos, todos eles válidos, para que me conceda a liberdade. Olha-me com a altivez de quem tudo pode. Deixa-me falar num silêncio ruidoso e com rosto inexpressivo.

Sacana d'um raio. Preparaste para me deixar sem argumentos como é habito. Enrolo-me nas justificações e tu sorris vitorioso. Nem precisaste de te dar ao trabalho de me responder. Sou tão otária.

- Se te der a liberdade que desejas como te irás orientar no tempo? O ontem será amanhã, o agora depois e o amanhã ontem.

- Mas...

Tudo o que queria era ser livre deste ditador. Tudo o que consegui foi fazer figura de parva. Não vale a pena lutar contra ele. Não vale a pena tentar argumentar. Ele vence pela experiência e nós somos vencidos pelo cansaço.

Nesta luta desigual o tempo passou e a vida não aconteceu. Dei demasiada importância a um patife de merda e perdi. As forças gastaram-se, a areia correu toda para a base da ampulheta e a vida passou-se. Sobra-me agora o tempo que não gastei a viver.

Posso voltar no tempo? Queria voltar a ter tempo para não desperdiçar tempo à espera do tempo passar.

Fui livre e não sabia.

 

(Imagem retirada do Google)

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