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Inquietações

Inquietações

31
Ago20

Feira

Liliana Rodrigues

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Ah! A vida. O que é a vida senão uma volta no canguru da feira? Se anda devagar, aborrece. Se anda depressa, incomoda.

Andamos às voltas e às voltas. E a vida não é nada mais do que a sucessão de voltas. Uns dias bem. Uns dias pior. Uns dias felizes. Uns dias tristes.

Mais uma voltinha, mais uma corrida. E corremos. Ai, se corremos. Vivemos na ansiedade do amanhã e no pesar do ontem. Corremos mais uma vez; às voltas.

O tempo passa. A idade avança. Não se pode desperdiçar mais tempo. É urgente viver tudo hoje. Já. O tempo atraiçoa e escapa-se. A frustração aumenta e a obsessão por viver aumenta.

Quem nunca desejou uma vida cheia de aventura? Sentir a adrenalina a correr nas veias. O coração a escoicinhar o peito como um Mustang selvagem. A afluência do sangue aos órgãos vitais. Os zumbidos e as tonturas. Não, menos um bocadinho.

Ah! Nada melhor para nos fazer sentir vivos. Perseguimos todas as experiências e novidades. Quanto mais e mais rápido melhor.

Passou e não volta. Foi e já não é mais. Podia-se e agora não há volta a dar. Só mais uma volta, enquanto se anda à volta com a vida.

Um dia estamos no topo do mundo. No outro descemos ao mais profundo abismo.

Andamos no mesmo carrocel vezes e vezes sem conta. Viciados na mesmice do que não preenche. Dependentes de aventuras vazias e momentâneas.

Afoitos por experimentar o mesmo e acovardados por ousar mudar. Andamos no mesmo carrocel porque é confortável. Já o conhecemos. Tem bancos fofinhos e macios. Corremos perigo. Vulneráveis à escravidão do viver no carrocel.

Lá fora a feira acontece. Há tanto para ver. Tanto para sentir. Tanto para descobrir. Tanto para nos descobrir. Apreciar a feira segundo o caminho traçado por nós. Ousadia. Loucura. Privilégio.

O canguru continua a girar e saltitar. A feira continua a decorrer. A idade continua a avançar.

E acaba. Tudo acaba e o que foi que se aproveitou?

 

 

(Imagem retirada do Google)

13
Ago20

Deixar de te amar

Liliana Rodrigues

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Olho pela janela. Procuro-te, mas não te encontro. Espero e tu não vens. E dói. Arde. Consome. Como é possível?

Revolto-me. Sou fraca por te amar assim. Não devo mostrar parte fraca. Não eu. Sou durona. Sou muito mais eu. Não sou nada sem ti. Merda.

Olho para a rua, na esperança de te ver. Não há sinal de ti. Não há sinal de mim.

Não me chames carente. Nem ouses chamar-me dependente. O amor tem que ser assim mesmo. Dependente. Carente. Obsecado. Tudo aquilo a que tem direito ser, quando ser é um direito.

Não te vou pedir desculpa por não ser sem ti. Não vou pedir desculpa por te exigir. Exijo-te para me ter a mim. Para seres em mim.

Avisto-te ao longe. O coração dispara. O corpo ferve. Vou voltar a ser. Voltar a viver. Já te disse que não vivo sem ti?

Esta bipolaridade, de ser só em ti o que não posso ser na tua ausência, agrilhoa-me ao teu amor. Anseio-te como quem, de baixo de água, anseia por ar.

És a minha prancha de salvação quando me perco de mim. Salva-me, por favor. Apressa-te a chegar. Desespero. Contorço-me de dor.

Num salto, dirijo-me à porta. Ouço a chave a rodar na fechadura e começo a tremer de desejo. Os segundos são horas para quem ama assim.

O teu corpo é o meu porto de abrigo. Aninho-me em ti, para me encontrar a mim. Finalmente sou eu. Somos um só. Somos nós. Somos a verdade do amor que nos funde.

Sinto-te na pele a carencia que tens de mim. Sinto-te a ansia de seres em mim. E somos. Somos dependentes. Somos loucos. Somos tudo quando juntamos o nada que somos sozinhos.

Amar é só ser quando se está. Amar é não ter medo de depender para ser. Amar é ser louco em conjunto. Amar é a fusão para se tornar um só melhor. Amar é melhorar a dois.

Não sei deixar de te amar.

 

 

(Imagem retirada do Google)

 

03
Ago20

Verão 2020

Liliana Rodrigues

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(pateira de Fermentelos, na nossa última visita à região centro do país, início de março de 2020)

 

Os dias quentes de verão aliam-se à vontade de fuga da realidade, que parece cada vez menos real. Pois é,  verão de 2020 vem, não só, acompanhado de calor, mas também de medo. O corona vírus não desapareceu. Está à espreita por uma oportunidade para fazer estragos. Uma espécie de predador a rondar a sua presa.

Não vou falar dos comportamentos de risco. Não vou falar do uso errado das máscaras. Nem vou falar dos jovens que acham que são imortais e que é só uma gripezinha. Vou falar de medo.

Neste ano atípico, ninguém pode dizer que o verão será como sempre foi. Não. Este ano é acompanhado de medo. É obvio que nem todos partilham desse medo, mas é mesmo por causa deles que o medo existe.

Se há quem tenha todos os cuidados e mais alguns, há quem coloque a si e aos outros em risco. Não me interpretem mal, porque não sou contra o turismo. Até acho que o turismo, nacional e internacional, é bom para equilibrar a economia desde que respeitem as regras.

As regras são simples e conhecidas por todos. Não vale a pena tentar furá-las ou refilar com quem as faz cumprir. Tenho assistido a situações desagradáveis porque os espaços estão na sua capacidade máxima ou porque informam que é obrigatório o uso de máscara. 

Não é por barafustar ou achincalhar as pessoas que estão isentos de cumprir as regras. São estas atitudes de falta de respeito pelos outros que avoluma o medo. Que segurança podemos ter com este egoísmo?

Não queria tomar este rumo, mas isto é falta de respeito e responsabilidade. Que segurança posso sentir ao levar a minha filha a um restaurante? Quem me garante que não aparece um chico esperto a desafiar tudo o que é regras? 

Até podem dizer que estou a ser paranóica e que não temos que viver com esta situação. Tudo muito bem, até concordo que temos que aprender a viver com a situação. Aprender a viver e não desafiar a sorte. 

Cada um é livre de escolher o que fazer da  sua vida, mas com a liberdade vem a responsabilidade. A liberdade da pessoa acaba quando a de outra começa. 

Após dois meses e meio de confinamento e longe da família, não quero correr riscos desnecessários. Se gostava de ter a liberdade para gozar o verão? Claro que gostava. Adorava poder disfrutar do verão como em anos passados, rodeada de família e amigos. Adorava poder juntar a malta toda para petiscadas ou convívios. Mas, o vírus não escolhe pessoas nem idades. Sobretudo não está estampado na testa de ninguém.

Este ano, o meu verão é com medo, sim, mas também com responsabilidade de proteção dos outros. Este ano, o verão está limitado. É preciso fazer um pequeno sacrifício este ano para que os próximos possam ser bem aproveitados. 

Um agosto com gosto e em segurança. 

 

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