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Inquietações

Inquietações

22
Out20

Vivemos nos intervalos da chuva

Liliana Rodrigues

chuva.jpg

(imagem retirada do Google)

 

A chuva acalma o calor de um Verão abrasador, assim como, as lágrimas acalmam a alma de quem sofre. Vão correndo ruidosamente sem que se façam ouvir. Gotejando memórias de dias felizes. Já chove.

A imagem torna-se menos nítida com a chuva, revelando apenas o essencial. O cenário é menos claro, mas mais evidente. E consegue-se ver o que durante tanto tempo andou camuflado. E chove.

O vento começa a soprar e faz-se sentir. Sopra para longe as lembranças de dias que passaram. Afasta para longe o que não interessa; o que nunca devia interessar. Sacode-nos com a saudade. Chove com mais intensidade.

Da tempestade fica a imagem desfocada do que um dia fomos. Lembrança perpetuada até que a memória nos atraiçoe. Chove e vai continuar a chover, a cada pedaço de história recordado.

Vive-se nos intervalos da chuva. Continua-se de tempestade em tempestade, com forças que julgamos não ter. Seguimos. Tal como o vento, as lembranças antecedem a chuva da alma. E chove.

Somos eternos quando somos lembrados. No final é tudo o que resta. Um pedaço da história na memória de um alguém que chora.      

 

 

 

 

 

16
Out20

Ribombar do trovão

Liliana Rodrigues

raios-trovao.jpg

 

(imagem retirada do Google)

Ouço o ribombar do relâmpago. Vêm aí uma tempestade. Observo. Vem longe. Talvez passe de roda. Tenho muito mais com que me entreter. Aproveito. De que vale sofrer por antecipação?


Sinto-me como o mais sábio expert, na inexperiência da vida. Vou vivendo distante da tempestade que se avizinha. Alheio à sua dimensão. Indiferente à sua intensidade. Ignorando a sua distância. Ainda tenho tempo.


O som o trovão intensifica-se. Um frio percorre a espinha. Talvez seja melhor recolher. Procuro a segurança, onde me possa abrigar. O vento começa a soprar. Presságio do temporal que ameaça chegar. Pode ser que me circunde. Que passe nos intermeios da chuva. Observo o escuro do céu rasgado de luz.


O ribombar do trovão ensurdece. A tempestade está próxima. Demais. Não era o trovão que devia temer, mas a casa ceder. E cede. Deixa-me à mercê do temporal. Sem protecção, numa desorientação espaço-temporal.


Praguejo contra o mundo. Contra Deus. Deixo-me consumir pela frustração. Cedo à raiva que me consome. Culpo. Culpo para me absolver da minha imprudência. Inútil. Assim como não se pode esconder o sol, não me posso desresponsabilizar da minha culpa. Negocio.


Abro as negociações com todas as entidades divinas, prometendo o imprometivel. Negociando o inegociável. Estabeleço compromissos condenados ao fracasso. Tento, sabendo que é em vão. De que vale agora se já fui atingido pelo trovão?


Percebo finalmente a minha imprudência. Afinal, não acontece só aos outros. Os erros podem ser os melhores professores. Os mais duros, mas os mais eficazes mestres. Interiorizo, da mais dolorosa forma, a lição de hoje. Reconstruo a casa. Reforço-a de forma a ser mais resistente. Espero que não volte a ruir.


Não é o ribombar do trovão que devo temer, mas que o raio me volte a atingir e faça a casa ruir.

 

 

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