Abençoada máscara
Ora muito bem, isto hoje vai ser um pouco diferente do habitual. Porquê? Porque me apeteceu e tinha que partilhar a minha vergonha.
No auge dos meus 37 anos julgava-me uma pessoa com um pingo de juízo. Sim, é verdade. Achei eu, na minha estupida ingenuidade, que conseguia fazê-lo sozinha e em casa. Enganei-me. Arrependo-me e prometo não voltar a fazê-lo.
Há vários anos que pinto o cabelo. Desde que os brancos começaram a aparecer e, garanto-vos, que foi muito cedo. Habitualmente vou à cabeleireira pintar (perdoa-me, Marisa, não o volto a fazer), só que agora é necessário agendamento e o tempo é coisa que me escasseia. Desta vez, pensei comprar a tinta e aplicá-la no cabelo (pois claro) no conforto do lar.
Enquanto escolhia a tinta, imaginava-me a executar as instruções tal e qual descritas num ambiente calmo, com música de fundo, umas velas aromáticas: perfeito. Assim quase que um semi-profissional. Comprei a cor que supostamente queria (sim, porque a cor por vezes não é bem como a pintam) e voltei para casa.
Sentia-me confiante. Uma espécie de técnico, de uma área qualquer, que de repente decide fazer canalizações sem experiência. Ou, um pedreiro que decide pilotar aviões.
Optei por pintar depois do banho da miúda, não fosse aquilo sujar a casa de banho. Não sei porquê mas algo em mim antecipava o caos que se sucedeu.
Comecei por ler as instruções (coisa que raramente ou quase nunca faço) e comecei a aplicar da raiz até às pontas massajando suavemente. O pânico instalou-se. Já não havia volta. A tinta estava para lá do cabelo. Orelhas, testa e pescoço estavam cobertos de tinta azul.
Ouvi uma voz:
- Mãe, estás toda pintada. Tu és uma carinha vermelha triste. Portaste-te mal e sujaste-te toda.
Foi quando percebi a dimensão do problema. Não era só nas orelhas, pescoço ou testa. Não. Tinha nos cotovelos, ombros, camisola e por toda a mão. Sim, usei luvas. Não, não protegeram como deviam. Estava mesmo a correr como tinha idealizado.
Ao finalizar o processo, com a remoção da tinta fiz uma javardice enorme na banheira. Havia tinta por todo o lado. O que deveria ser rápido, demorou tanto que acabei por ficar com a água fria e o cérebro congelado. Menos mal, arrefeceu as ideias que começavam a ferver.
Foi mau demais para voltar a repetir. Sinto que devia ter passado por isto há uns bons vinte anos atrás. Resta-me agora ficar feliz por usar máscara e ter como esconder a minha vergonha.


