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Inquietações

Inquietações

24
Nov20

Abençoada máscara

Liliana Rodrigues

Ora muito bem, isto hoje vai ser um pouco diferente do habitual. Porquê? Porque me apeteceu e tinha que partilhar a minha vergonha.

No auge dos meus 37 anos julgava-me uma pessoa com um pingo de juízo. Sim, é verdade. Achei eu, na minha estupida ingenuidade, que conseguia fazê-lo sozinha e em casa. Enganei-me. Arrependo-me e prometo não voltar a fazê-lo.

Há vários anos que pinto o cabelo. Desde que os brancos começaram a aparecer e, garanto-vos, que foi muito cedo. Habitualmente vou à cabeleireira pintar (perdoa-me, Marisa, não o volto a fazer), só que agora é necessário agendamento e o tempo é coisa que me escasseia. Desta vez, pensei comprar a tinta e aplicá-la no cabelo (pois claro) no conforto do lar.

Enquanto escolhia a tinta, imaginava-me a executar as instruções tal e qual descritas num ambiente calmo, com música de fundo, umas velas aromáticas: perfeito. Assim quase que um semi-profissional. Comprei a cor que supostamente queria (sim, porque a cor por vezes não é bem como a pintam) e voltei para casa.

Sentia-me confiante. Uma espécie de técnico, de uma área qualquer, que de repente decide fazer canalizações sem experiência. Ou, um pedreiro que decide pilotar aviões.

Optei por pintar depois do banho da miúda, não fosse aquilo sujar a casa de banho. Não sei porquê mas algo em mim antecipava o caos que se sucedeu.

Comecei por ler as instruções (coisa que raramente ou quase nunca faço) e comecei a aplicar da raiz até às pontas massajando suavemente. O pânico instalou-se. Já não havia volta. A tinta estava para lá do cabelo. Orelhas, testa e pescoço estavam cobertos de tinta azul.

Ouvi uma voz:

- Mãe, estás toda pintada. Tu és uma carinha vermelha triste. Portaste-te mal e sujaste-te toda.

Foi quando percebi a dimensão do problema. Não era só nas orelhas, pescoço ou testa. Não. Tinha nos cotovelos, ombros, camisola e por toda a mão. Sim, usei luvas. Não, não protegeram como deviam. Estava mesmo a correr como tinha idealizado.

Ao finalizar o processo, com a remoção da tinta fiz uma javardice enorme na banheira. Havia tinta por todo o lado. O que deveria ser rápido, demorou tanto que acabei por ficar com a água fria e o cérebro congelado. Menos mal, arrefeceu as ideias que começavam a ferver.

Foi mau demais para voltar a repetir. Sinto que devia ter passado por isto há uns bons vinte anos atrás. Resta-me agora ficar feliz por usar máscara e ter como esconder a minha vergonha.

 

22
Nov20

Estou farta

Liliana Rodrigues

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Estou farta. Sim, estou farta. Cansada. Chateada. Rabugenta. Intolerante. O diabo a sete ou oito ou dois mil e vinte. Não posso mais com este vírus demoníaco. Um estupor que rouba tudo e até a vida.

Um ladrão é o que este vírus é. Um ladrão do que tínhamos como garantido. Um criminoso da pior espécie. Um criminoso que merece estar fechado numa prisão de alta segurança e ser condenado à morte, por todas as mortes que causou e por todos os projetos que roubou. Assassino.

É o serial killer que vagueia entre nós, sem rosto e sem ruído. Ronda-nos como a fera que se prepara para atacar a presa: nós. Sentimos que está perto, mas não o vemos. Sentimos que nos observa, mas não há como o antecipar. Estamos em desvantagem. Estamos com medo.

O medo cega-nos. Há quem corra em várias direções ignorando os avisos, como se tentando fintar a fera. Quem desafie a sorte julgando que só acontece aos outros. Há quem se revolte contra os restantes, dirigindo o seu medo em forma de ataque. Há quem petrifique e espere pela morte. Em qualquer dos casos, somos todos potenciais presas deste predador implacável.

Todos os dias ataca fazendo várias vítimas. Uns perdem as vidas e outros ficam apenas feridos. A verdade é que ninguém escapa às garras do assassino. Há marcas mais profundas que as físicas. Há marcas que irão demorar gerações a desaparecer.

Nunca nada será igual. Incorporamos à força um novo normal na anormalidade em que vivemos. Afastamo-nos cada vez mais das pessoas. O contacto físico está desaconselhado. A conexão relacional está a desvanecer: solidariedade, compreensão, empatia, amizade e amor. Aos pouco afastamo-nos de nós, da nossa essência. Estamos a morrer às mãos do assassino sem ele nos tocar.

Estou farta desta merda deste vírus e de tudo o que ele nos rouba. Estou cansada de um ano sofrido que se irá arrastar no tempo. Estou chateada por todas as vezes que quis gritar de raiva e de dor e de medo e não o fiz. Não consigo fingir mais que é normal. Não posso mais silenciar o grito que pulsa nas artérias. Não quero mais passar por isto sem dizer que custa. Custa muito. Custa horrores.

Cumpro rigorosamente todas as orientações para preservar os que amo. Afasto-me deles se for preciso. Mas não posso fingir que não me chateia, que não me dói, que não me afeta. Estou furiosa com todos os abraços que ficaram por dar. Enraivecida por estar longe de quem amo. Possessa por ainda me arruinar os planos do reencontro. Mas uma pessoa tem que fazer o que é preciso fazer.

Espero que te levem para um lugar bem longe e que fiques lá a apodrecer sozinho, Corona vírus. Espero que um dia não passes de uma lembrança má. Vai para o raio que te parta. Vai à merda.

 

(Imagem retirada do Google)

 

15
Nov20

Anda

Liliana Rodrigues

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Saiam da frente. Deixem-me passar que tenho pressa. Foi muito o tempo que já desperdicei. Foi muito o tempo que andei distraída. Distraímo-nos tanto com o que não importa. Ocupamo-nos tanto com o que não interessa. Perdemos tanto tempo com o que não nos diz respeito. Saiam da frente.

Deixem-me passar que tenho pressa. Não me se atravessem no meu caminho que tenho urgência. Peço-vos que me deixem passar. Não quero perder tempo a contornar-vos. O confronto é perda de tempo. A argumentação perda de energia. Não estou com disposição e só quero seguir em frente. Deixem-me passar.

Isto é uma urgência. O tempo está a contar e não me quero atrasar. Já perdi muito tempo com inutilidades que não me levaram a lugar nenhum. Inutilidades que em nada me acrescentaram. Não tenho tempo para perder tempo. Estou com urgência.

Deixa-me voar. Seguras-me nos braços quando tudo o que quero é voar. Solta-me. Agarra a minha mão e vem voar comigo. O voo não tem que ser solitário, mas tem que ser livre. Dá-me a liberdade de escolher voar contigo. Levantamos voo para descobrir o mundo. Anda voar.

Segura a minha mão e vem. O caminho não é retilíneo e nem te posso prometer que seja. Poderão existir obstáculos ao longo do percurso que teremos que superar. Podemos ter dificuldade na escolha do trilho a seguir. Poderemos ter que seguir momentaneamente caminhos diferentes para nos reencontrar no final. Vamos caminhar juntos. Segura a minha mão e vem viver.

Agarra-me. Quando doer é quando vou precisar do teu abraço apertado. Vou ter momentos em que estarei fragilizada: agarra-me com toda a força e não me largues. Quando me perder de mim, encontra-me envolvendo-me com os teus braços. Agarra-me para que viva.

Quero viver. Quero respirar fundo e sentir a aragem fresca da manhã. Quero ver os primeiros raios de sol rasgar a escuridão da noite. Quero ouvir o som dos pássaros a anunciar o início do novo dia. Quero viver tudo o que há para viver.

Não tenho medo de falhar. Não tenho medo de cair. Não tenho medo de sentir. Tenho medo de não viver e apenas existir. Saiam da frente e deixem-nos passar. Estamos com pressa de sonhar. Temos urgência de viver.

 

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