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Inquietações

Inquietações

28
Dez20

Ano novo, vida nova?

Liliana Rodrigues

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(imagem retirada do Google)

Estamos a três dias de um novo ano e, embora um pouco diferente, muitos cumprirão o ritual de sempre. Sim, um ritual que, mesmo com restrições e isolamentos, será mantido. Não estou a falar de comida. Estou a falar nas resoluções de ano novo.

Quando o relógio marcar as zero horas (ou vinte e quatro, para os perfeccionistas), será o começo de um novo capítulo. Pelo menos é o que se espera. Ou será apenas mais um ano de promessas ou resoluções por cumprir. Tudo dependerá do grau de compromisso e seriedade de cada um.

A verdade é que, demasiadas vezes, damos por nós a desejar e a comprometer-nos com coisas que não nos dizem nada. Fracasso na certa. Isto é uma forma de violência, levada a cabo por nós mesmos.

Se há algo a reter neste ano que termina é que mudar custa: dói. Relembro-me dos dias de confinamento em que todos se tornavam pessoas melhores e que era só solidariedade e compaixão. Passaram-se meses, desconfinou-se e, de repente, sofremos de uma amnésia. Todas as resoluções e promessas ficaram algures, bem lá a trás no tempo, confinadas permanentemente. Claro que houve e há excepções (valha-nos isso), mas de um grosso modo este foi o resultado final.

O que é que importa realmente para que não condenemos ao falhanço as resoluções de ano novo? Bem, acima de tudo, é sermos verdadeiros connosco. Portanto, é importante conhecer a nossa essência. Quem somos. O que nos move. O que nos faz sorrir. Ter a capacidade de decidir, em consciência, o que se quer melhorar e estar disposto a lutar por isso. Ter a coragem de não deixar que nada se intrometa no percurso. Ter a coragem de mudar.

A mudança nem sempre é tão desejada como é anunciada. Implica dor, da ruptura com o anterior, medo, do desconhecido, e força, para enfrentar as adversidades que vão surgir (surgem sempre).

O novo ano aproxima-se a passos largos e está na hora de parar e ponderar. Será que vou repetir as mesmas resoluções que vem a falhar ano após ano? Será que vou fazer uma mudança real, que vá ao encontro da minha verdade, e comprometer-me de forma séria e responsável? Ou será que, o melhor é estar quieto e manter-me como estou? Tens todas estas possibilidades e talvez muitas outras. O mais importante de tudo, muito mais de que um novo ano que começa, é que tens o poder de escolher. Escolhe.  

16
Dez20

Morre aos poucos

Liliana Rodrigues

Morre, aos poucos, o amor que te tenho. Sempre soube que não era fácil te amar. Sempre soube que, muitas vezes, teria que esquecer-me e colocar-te em primeiro lugar. Sabia que a família e amigos, com o tempo, ficariam penalizados com a nossa relação. Sim, sempre soube de tudo isto e, ainda assim, lutei por ti. O nosso namoro não foi um mar de rosas, mas em ti havia uma promessa. Lutei. Aceitei-te. Casámos.

Quinze anos passaram. Tivemos os nossos altos e baixos, tal como qualquer casal. Houve dias muito felizes e dias menos felizes. Inevitavelmente, ao fim de todos estes anos, comecei a fazer um balanço do nosso amor. Há um lado para onde a balança pende mais.

No fundo eu sabia. Sempre soube. Dei-te muito mais do que alguma vez me deste a mim. Tudo e de retorno recebi muito pouco. Dou por mim a pensar, vezes sem conta, que a nossa relação já não tem pernas para andar. Mas ainda te amo. E odeio.

Odeio-me sobretudo a mim, por tudo o que me tiraste e por não te conseguir deixar. E preciso, sim, preciso de ti. Entranhaste-te em mim de tal maneira que te sinto como a pele. Enraizaste-te em mim que é só em ti que penso. Vivo em ti. Vivo de ti. Asfixio.

Sufocaste-me. Exiges de mim mais do que quero dar, do que posso dar. A minha família sofre ao ver-me assim e sofro por a ver sofrer. E tu? Pouco te importas. Apenas queres que esteja ao teu lado. Na saúde e sobretudo na doença. Todos os dias da minha vida. Até que…

Não quero morrer nas tuas mãos, meu amor. Não quero mais estar dependente de ti. Não quero vestir-te como a uma pele. Não te quero mais. Quero ser livre e feliz, mas não posso. Enrolo-me sobre a minha dor e grito, o mais alto que posso, com a força que ainda não me sugaste. Grito a minha desilusão na sombra do que ainda sou.

Finjo um sorriso para ti. Finjo para que não percebas o quanto me dóis. Finjo a força sacada a ferros do que julgo já nem ser. Continuo contigo por mais algum tempo. Não sei quanto tempo mais vou aguentar, mas continuo ao teu lado como me exiges.

Olho-te nos olhos. Tu sabes. Conheces-me bem. Brincas comigo porque sabes que ainda preciso de ti. Tens a faca e o queijo na mão e estou à tua mercê. Tens o meu corpo, mas jamais terás os meus sonhos. E sonho. Sonho com o dia em que me libertarei de ti. Sonho com o dia em que encontrarei outro amor. Sonho com o dia em que serei feliz.

Sabes, amor, pensei muitas vezes que eras tu quem me definia. Esqueci-me que tinha identidade. Esqueci-me quem era. Agora, vejo que há muito mais em mim do que o que conheces. No fundo sempre fui eu quem teve o poder da escolha. Acho que sabes bem qual é. Vou-te deixar, amor. Verás finalmente quem sempre fui.

 

10
Dez20

Desculpa

Liliana Rodrigues

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Desculpa.

Queria começar de outra maneira, mas não o posso fazer. Queria poder defender-me, mas falta-me a coragem. Queria prometer que será diferente, mas não te quero falhar. Queria poder compensar-te, mas já passou tempo demais. Desculpa.

Escrevo para que um dia possas compreender que fiz tudo o que estava ao meu alcance. Escrevo para que um dia possas perceber que é impossível controlar todas as variáveis na vida. Escrevo para que, talvez, consigas evitar cair na mesma armadilha. Escrevo para que me possas perdoar num futuro longínquo. Escrevo para ti. Perdoa-me.

Compreendo agora a injustiça que cometi quando, há muito tempo atrás, cobrei indevidamente. Sim, eu fi-lo e peço perdão aos teus avós por isso. Fi-lo quando cobrei mais do que me podia dar. Fi-lo quando fui injusta ao achar que não me amavam o suficiente para me darem mais. Fi-lo quando os acusei de falta de tempo. Peço humildemente perdão. Vejo agora que repliquei na perfeição o que indevidamente cobrei.

Pela boca morre o peixe, diz a sabedoria popular. Sei que um dia também me cobrarás o mesmo: falta de tempo para ti.

Corro o mais rápido que posso para que não nos falte o tempo. Desculpa, mas hoje tive que ficar até mais tarde. Desculpa, mas hoje tive que assegurar o turno. Desculpa, mas este ano não posso gozar o Natal em família. Desculpa, mas tenho que trabalhar mais para que não nos falte o essencial. Desculpa.

Chego a casa com o peso na consciência de te ter falhado, de te ter faltado. Trouxe um miminho para compensar. Mais um que vais amontoando com os outros, fruto da dor de não poder estar.

Desculpa, mas tudo o que te digo parecem desculpas. Soam a desculpas baratas para nos afastarem. Desculpas esfarrapadas de tão velhas que são. Desculpas que, fica já a saber, me doem horrores de tas dar. Desculpas para desculpar o indesculpável quando para mim a prioridade és tu.

Desculpa se não sou a mãe perfeita, como a das tuas amigas ou a que idealizaste. Desculpa por ser só esta mãe que tenta fazer o impossível com o possível que tem. Desculpa por não poder escolher diferente por não existir outra escolha.

Se mandasse no mundo nada disto seria assim. Teria tanto tempo para ti como aquele que pedes de mim. Não mando. Com muita pena minha não há nada nesta vida que se possa controlar. Desculpa.

Prometo viver todos os momentos, por mais fugazes que sejam, ao máximo. Vamos fazer com que cada segundo conte. Que cada segundo seja intenso. Que cada segundo se torne uma feliz recordação. Cada segundo vivido como se o mundo para nós parasse.

Sei que não te posso fazer grandes promessas, mas vou fazer-te uma. Prometo que a minha vida será sempre contigo como minha prioridade. Amo-te ontem, hoje e eternamente, filha.

 

 

01
Dez20

Natal agridoce

Liliana Rodrigues

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(imagem retirada do Google)

O mês de Dezembro chegou e com ele muita ansiedade (pelo menos para mim). Avizinha-se a época mais festiva do ano. Aquela que é celebrada por todo o mundo e por todos os credos, mesmo que de formas diferentes.


Ao contrário de anos anteriores, este ano teremos à mesa, a celebrar mesmo ali ao nosso lado, o filho da mãe do vírus. Sim, preferia não falar no assunto, até porque há coisas mais agradáveis de se falar, mas não consigo enfiar a cabeça na areia como a avestruz e fingir que será tudo igual.


Este ano, depois de uma longa negociação no meu serviço (longa, mas mesmo muito longa) consegui as almejadas férias de Natal. Claro que isto foi muito antes da pandemia. Estava toda contente por poder celebrar o Natal com toda a família na terra dos guarda-chuvas coloridos.


No último Natal, passado em Águeda, a Alice (com apenas dois anos, na altura) voltou maravilhada. Não dava para esconder a alegria de ver o Pai Natal gigante e todas as decorações pela cidade. Falou nisso durante semanas. Este ano queria vincar essas lembranças na sua memória e poder proporcionar um Natal diferente à restante família do litoral alentejano. Queria. E quero, mas do querer ao poder a distância, neste contexto, é estupidamente abismal.


Estou ansiosa por poder ir a casa, até porque há mais de seis meses que não vou. Estou desejosa de fazer as malas e arrancar rumo a Águeda, mas morro de medo. O medo do contágio, por a minha filha ser doente de risco. Viver esta mistela de emoções desgasta. Se por um lado estou mortinha por ir, por outro quero ficar.


Se fosse possível, talvez esta fosse a altura de questionar um ser superior sobre o que fazer ou que decisão tomar (isto, contando que se poderá reunir a família mesmo que com um número limitado de pessoas).


Vivo na ansiedade de conhecer as restrições, adoptadas pelo governo, para esta época. No gume da faca do que fazer. E no limbo em que a vida se tornou. Neste momento, já dizia o Ricardo Araújo Pereira, estar vivo aleija. E de que maneira.


Por mais que tente deixar-me envolver pelo espírito natalício, há sempre um covidado indesejado que espreita. Definitivamente não quero estar longe dos que amo, mas não posso permitir que ele se sente à mesma connosco. Desejo poder estar com os meus e passear pelas ruas da cidade, mas não posso correr o risco.


Não sei como está a correr convosco, mas comigo não está a ser uma época fácil: de planear, de gerir, de aproveitar e de viver. Este será, para mim, sem sombra de dúvida, um Natal agridoce.

 

 

 

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