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Inquietações

Inquietações

22
Fev21

O hamster fugiu

Liliana Rodrigues

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"Há tempo para tudo, costumava a minha mãe dizer. Ingénua. Há tempo para tudo, para tudo o que não precisa de tempo. Vivo a correr. Correr para o trabalho, no trabalho e para casa. A riqueza da vida não se mede pelo dinheiro que se tem. Mede-se pelo tempo e esse nunca me chega. Envelheço a cada segundo que passa e a cada segundo morro um pouco mais. Raios.

Todos têm o mesmo tempo: vinte e quatro horas por dia. Todos têm o mesmo tempo, todos aqueles que não estão condicionados por ele. O dia têm vinte e quatro horas, mas não me chegam. Não chegam para viver a vida que eu quero. O tempo foge. Já morri mais um bocadinho. O meu corpo envelhece com esta forma de viver: a correr. Espero e morro.

Não posso esperar. Não tenho tempo para esperar. Se fizesse o caminho a pé, até casa, talvez poupasse tempo. A cada minuto que permaneço aqui, perco. Perco muito. Perco tempo que não volta atrás. Oxalá o tempo parasse, nem que fossem apenas uns minutos. Uns míseros minutos é tudo o que peço. Mas peço a quem, se não há ninguém que faça parar o tempo?

Há que ser criativo e pensar fora da caixa, dizem eles. Como pensar fora da caixa se vivo numa bola? Uma bola que roda e que roda voltando sempre ao mesmo ponto de partida. Corro, corro e não saio desta roda. Vivo a correr na roda dos hámsteres. Sim, um hámster é o que sou. Corro, corro, corro até morrer de cansaço e não saio do mesmo lugar. Viver para pagar contas. Viver para ter o mínimo indispensável para sobreviver. Escravo. Escravo do tempo.

Estuda filho para seres alguém na vida, para teres um futuro melhor. Ah, minha querida mãe como estavas enganada. Venderam-te um peixe podre e tu, inocentemente, compraste. Tudo o que a escola me ensinou foi a cumprir. Cumprir formas de pensamento predefinidas. Formatado. Condicionado. Castrado. Adeus criatividade. Adeus sonhos. Adeus pensamento crítico. Olá palas nos olhos como as bestas. Sim, besta. Sou uma besta. Não como aquelas que se usavam para trabalhar nos campos – essas não tinham palas a vida toda, felizmente -, uma besta pior. Uma besta que não vê mais do que uma linha recta à sua frente. Uma besta que não vê o horizonte. Uma besta escravizada e a morrer: sem tempo.  

Que raio estou eu ainda a fazer aqui? Já devia estar a meio do caminho se fosse a pé. Covarde. Sou covarde demais para arriscar. Deixei-me acovardar. Comprei as mentiras que me foram vendendo ao longo da vida; não admira que viva a contar trocos. Paspalho. Ingénuo. Venderam-me que na vida devíamos optar pela segurança e estabilidade. Cá estou eu, com um emprego seguro e uma vida estável. Estável?! Estagnada. Uma vida hipotecada. Penhorei a vida ao comprar todas as mentiras que me disseram; um investimento a fundo perdido. Besta.

Mas, e se tivesse feito diferente? E se tivesse tentado algo diferente e tivesse falhado? Não sei o que é falhar! Segui à risca a receita para a vida; estudar, ter um bom emprego (pelo menos estável), casar, ter filhos e… morrer. Não falhei em nada. Então porque me sinto miserável e infeliz? Não testaram a receita antes de a divulgarem?! Deveria ser a forma de vida perfeita. Deveria ter uma vida perfeita. Então, porquê não é? Porque me sinto tão imperfeito com toda esta perfeição? Onde está a falha? Não sei falhar. Não estou preparado para isso. Ninguém me preparou. Bestas.

Ainda aqui estou. Especado à espera do quê? Menos cinco minutos de vida; mais perto da morte. Mais perto?! Corro, corro e corro. O sacana do hámster não sai do mesmo lugar. Trabalhar para pagar contas. Trabalho, dinheiro. Mais trabalho mais dinheiro. Mais dinheiro mais consumo. Mais consumo mais contas. Mais contas mais trabalho. Mais trabalho mais dinheiro. E viva a roda dos hámsteres. No final, não saí do mesmo lugar. Vou morrer sem nunca ter vivido. Besta."

(excerto do livro "O hamster fugiu")

12
Fev21

A culpa é minha

Liliana Rodrigues

 

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A culpa é minha e ponho-a em quem quiser. A frase proferida pelo guru Homer Simpson, nunca fez tanto sentido como ultimamente. A velocidade a que nos apressamos a culpar alguém anda ali muito próxima da da luz. E porque somos tão rápidos a culpar os outros?

Podia tentar encontrar uma explicação baseada em estudos e evidências, mas seria uma perda de tempo. A verdade é que culpar os outros é uma excelente forma de livrar a água do capote. Assumir a responsabilidade é tramado, implica reconhecer erros ou limitações e enfrentar as consequências dos nossos actos. Assim, sendo nossa a culpa porque não dá-la a outra pessoa ali mesmo á mão.

Bem vistas as coisas, até pode ser considerado um acto de generosidade. Atribuir de mão beijada a culpa a alguém que, na maioria das vezes, não a tem. Para mim revela um altruísmo puro e genuíno. Só que não. É apenas uma tremenda falta de responsabilidade e de carácter. Pois é.

À medida que vou observando as redes, cada vez menos sociais, dou conta de que a prática generosa da culpabilização dos outros viralizou. E culpam este e aquele e o outro também. Não importa o quê, mas há sempre um culpado. Verdade, mas não a quem se dirige a culpa. Vejamos.

Alguém disse alguma coisa que me não me caiu no goto. Eu, armada em virgem ofendida vou achincalhar. Ora como quem vai à guerra dá e leva, não tarda tenho uma resposta à altura. Enervo-me, pois tá claro. De quem é a culpa? Do outro, claro. A culpa é minha ponho em quem quiser.

No trabalho espero que elogiem o meu desempenho. Crio na minha cabeça expectativas demasiado altas. Ninguém me passa cartão e fico toda ofendida. De quem é a culpa? Deles, está claro. A culpa é minha ponho em quem quiser.

Chego a casa e o meu marido não vem logo, tipo cachorrinho desesperado, a correr dizer que me ama. Fico de trombas, claro. Só tinha era que vir, onde já se viu tratar-me assim. De quem é a culpa? Dele, claro. A culpa é minha ponho em quem quiser.

Vivemos uma pandemia e estamos confinados, mas quero sair porque estou farta e já não estou mais para isto. Saio desnecessariamente e despreocupadamente. Agora tenho de viver de açaime o resto da vida, querem ver? Contraio a Covid 19. De quem é a culpa? Do estado estado em geral e dos outros em particular. A culpa é minha ponho em quem quiser.

Se a culpa é minha e ponho-a em quem quiser, pode ser que também haja quem me ponha a culpa. Se calhar a culpa é minha e fique com ela.

 

 

 

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