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Inquietações

Inquietações

08
Mar21

Mulher

Liliana Rodrigues

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Pessoa dizia que tinha nele todos os sonhos do mundo. As mulheres têm muito mais que sonhos. Têm muito mais. São muito mais.

Anjos e demónios. Delicadeza e força. Calma e agitação. Equilíbrio e loucura. Tudo ou nada.

Capazes de ultrapassar os maiores obstáculos. Percorrer os caminhos mais árduos. Descer aos lugares mais sombrios. Tudo pelo que amam. Tudo por o que acreditam.

Carregam em si a vida. Suportam as maiores dores. O seu corpo transforma-se para que a vida aconteça. Sentem os seus ossos a separarem-se e a dor dilacerante da pele a rasgar e, ao primeiro choro, têm a certeza de que passariam por tudo novamente.

Entregam-se de corpo e alma, sem medos nem pudores. Determinadas no que querem e como querem. A sua fragilidade é apenas o tecido que esconde a sua imensa força. Imparáveis. Incontroláveis. Indecifráveis. Inigualáveis.

Sonhadoras dos maiores sonhos, pintam com amor o mundo cinzento. E pintam. E sonham, os sonhos jamais sonhados. E vivem-nos. Perseguem-nos nem que a vida lhes custe. Vão conquistando aos poucos o mundo que lhes foi negado. Sonhando mais alto. Sonhando mais forte. Sonhando melhor.

As mulheres têm em si todos os sonhos do mundo e todo o poder também.

Para todas as mulheres passadas e futuras.

 

 

03
Mar21

A voz da alma

Liliana Rodrigues

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O dia espreitava timidamente por entre a neblina matinal. Sair do calor confortável da cama não fazia parte dos planos. Há muito que prometia a si própria uma mudança, mas o clique parecia tão distante como o pico de uma montanha.

Uma voz infantil sussurrava dentro de si. Queria muito mais do que lhe dava naquele momento.

- Não, hoje não.

A alegre voz continuava a pedinchar. A sua euforia era notória. Sussurrava-lhe tudo o que poderiam fazer juntas se decidisse acompanhá-la. Contou-lhe todas as aventuras que viveriam. Os lugares fantásticos que iriam descobrir. Não existiam limites. Tudo lhes seria possível. Bastava só uma coisa. Uma tão pequena e singela coisa.

Virou-se na cama e tapou a cabeça com os cobertores.

- Estou cansada. Sabes o quanto tenho trabalhado?

A voz não intensificou os seus argumentos. Escreveriam juntas uma nova história; várias novas histórias. A vida não seria mais um esforço. A monotonia acabaria para sempre. O seu trabalho seria tão prazeroso que não voltaria a sentir que era uma obrigação. Tudo encaixaria perfeitamente.

- Isso não é para mim. Não consigo fazer isso.

A voz, com a tristeza de uma criança que foi repreendida,  rematou:

- Os limites são apenas invensões da nossa cabeça.

Fez-se silêncio.

Na garganta seca formou-se um nó. O ar tornou-se pesado. O corpo ficou inquieto. Uma tempestade de pensamentos abalroou-a como se fosse um camião, ladeira abaixo sem travões.

- Que estou a fazer?

Num só movimento saiu da cama. Procurou pela voz inocente da criança que lhe falou. Teria que estar em algum lado, mas onde. Passou uma água pelo rosto e olhou-se ao espelho. Fixou o seu rosto. Olhou para a profundeza dos seus olhos. Parou.

- É aí que estás. Onde me queres levar?

Saiu e subiu ao topo da montanha e transformou a sua vida.

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