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Inquietações

Inquietações

13
Fev22

Feliz dia dos namorados, meu amor

Liliana Rodrigues

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Estou a terminar os preparativos. Amanhã nada pode falhar. Não posso falhar. Tenho tudo planeado. Vai ser perfeito. Tem que ser perfeito. Desta vez.
O dia acorda e com ele a esperança. Juro que me vou esmerar. Das outras vezes falhei, mas hoje não. Não o vou permitir. Olho ao espelho e, como quem assina um contrato, selo o acordo.
Passo uma base mais escura para esconder os papos negros. Dou um realce discreto à tez macilenta. Passo um batom suave. Não posso exagerar. Não posso estragar já tudo. Não, não posso.
Está perfeito. O dia está perfeito. Tudo flui na perfeição. Tenho medo. Dizem que “quando a esmola é demais o santo desconfia”. Não, hoje não. Hoje tem que ser perfeito. Ao fim de vários anos, hoje, pelo menos hoje, tem que ser perfeito. Não posso falhar.
Corro para casa o mais rápido que as pernas me permitem. Não perco nem um segundo. Evito a vizinha do rés do chão, que vem fazer conversas sobre ti. Atravessou-se à minha frente, acreditas? A mulher alucinou “uns barulhos” ainda ontem à noite. Ela precisa de ajuda. Rapidamente. Está muito mal, coitada.
Subo os degraus dois a dois. Destranco a porta e desejo que não tenhas chegado ainda. Felizmente não. Ainda tenho tempo para te surpreender. Ainda há esperança para te agradar. Não vou falhar, prometo.
Preparo a tua comida preferida, tal como gostas. Levo ao frigorífico aquela sobremesa que a tua mãe me ensinou. Prometo que fiz tal e qual me ensinou. Desta vez fica como a dela. Ai não, se não fica.
Visto uma blusa com um pouco de decote, mas sem exagerar. Coloco aquela saia preta, que fica um pouco abaixo dos joelhos, que me compraste no Natal. Não vou passar maquilhagem, nem colocar bijuterias. Não, isso é para as mulheres que andam à procura de caça. Vou ser a mulher perfeita que tanto queres. Prometo, não vou falhar. Hoje não.
Ouço os teus passos pesados subirem os degraus. O meu corpo treme. Sinto o coração a sair-me pela boca. O ar torna-se pesado demais para respirar.
- Que estás aí a fazer especada? Não vês que cheguei?
Corro para ti. Ajoelho-me e ajudo-te a descalçar esses sapatos tão pesados. Trabalhas tanto para que nada nos falte. Sou tão sortuda por te ter. Por me permitires ser tua mulher.
Reparaste que estava diferente. Que felicidade. Sabia que não te iria desiludir. Sentiste o cheiro da comida que tanto gostas. Perguntas-me o que se passa e advertes-me que não gostas de surpresas. Que é bom que não seja uma gravidez.
Sai-me timidamente um “feliz dia dos namorados” e o teu rosto enfurece. Peço-te mil desculpas pela parvoíce. Queria tanto agradar-te e no fim estraguei tudo. Perdoa-me.
Jogas-te sobre mim e dizes-me o quanto te faço sofrer. Sei que não és assim e a culpa é minha. Podia ter-te lembrado para que pudesses, também tu, mostrar o teu amor. Inferiorizei-te com esta minha atitude altiva. Mais uma vez, estraguei tudo. Como fui capaz?
- Desculpa, meu amor. Não queria que te sentisse assim. Só te queria ver feliz.
Agarras-me com força. Sinto os teus dedos cravarem-me a pele. Bates com a tua cabeça na minha e gritas-me para que não repita a graça. Nunca mais, prometo. Pedes-me para que tire a roupa, apoderas-te do meu corpo enquanto me dizes tudo aquilo que sou. Desferes-me golpes no corpo menos dolorosos do que as palavras que me atiras. Nada, não valho nada. Apertas o meu pescoço com força enquanto me penetras violentamente.
Fico imóvel. Deixas-me para trás enquanto saboreias o banquete. Espero que tenhas gostado, meu amor.
As horas passam e nem sentes a minha ausência. Deitas-te ao meu lado. Sentes-me finalmente tal como fiquei. O resultado do teu amor está ali. Morta. Ao teu lado. Até ao fim.
Feliz dia dos namorados, meu amor.

 

 

 

(Imagem retirada do Google)

02
Fev22

A derradeira fotografia

Liliana Rodrigues

A noite começava a cair. A cidade agitava-se freneticamente com o regresso de muitos às suas casas. Fervilhava vida, contrastando com a temperatura que caía. Gelava.
Vagarosamente avançava. Gostava de observar o mundo à sua volta, como que fotografando mentalmente: cada passo, cada gesto, cada rosto. Os seus olhos maduros tinham a capacidade de captar a beleza em cada pormenor.
Era a preto e branco que imortalizava cada momento. A cru. Sem que a distração da cor impedisse de detalhar o genuíno. A expressão dos rostos. O detalhe do movimento. A paixão da alma.
Caiu. O seu corpo permaneceu, ali, imóvel à mercê da noite fria. A vida pulsava naquela rua de Paris. Efervescia cor, luz, som e deslumbre aos olhos dos que passavam. Alheios. Embriagados em si.
Como que eternizado por uma lente, ficou. A sua viagem terminava mais cedo do que era previsto. Nunca chegou ao destino. O grande fotógrafo tornava-se na derradeira fotografia.
Exposto à vista. Ignorado pelos críticos. Tão frio. Tão cruel. Tão desumano.
À sua volta, a vida fervilhava enquanto que o frio se apoderava do seu corpo. Entranhava-se nos músculos, enregelando os ossos e gelando a alma. O coração congelou com a indiferença. A alma abandonou o corpo gelado. A vida parou.
A fotografia perfeita de uma sociedade gélida. A imagem crua do mundo. A preto e branco, para que a cor não amenize a sua dor.
Não foi o frio de Paris que o matou. Não. Foi o gelo da indiferença. A frieza das pessoas que deliberadamente o ignoravam, deixando-o no chão a morrer.
O que o matou fomos nós. A sociedade indiferente, fria, egoísta e cada vez menos humana. Tão cheios de certezas. Tão cheios de convicções. Tão cheios de pressa. Tão cheios de nós. Tão incapazes de sentir a única emoção que nos torna humanos: empatia.
Se fosses tu, ali, naquele chão frio? Se fosse eu? O que estamos a fazer?
Até sempre, René Robert.

(Imagem retirada do Google)

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