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Inquietações

Inquietações

02
Dez19

Beirã

Liliana Rodrigues

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O sol começa a esconder-se, ao fundo no mar, deixando um tom avermelhado no céu. O silêncio da penumbra atira-nos, por vezes e à rebeldia, para um estado mais introspectivo. Ao longe, as aves regressam aos seus ninhos procurando abrigo. Nós começamos a regressar a casa após mais um dia de trabalho.

Os finais de tarde de Dezembro são tão belos como mágicos. O frio do início da noite acalma o calor de um dia de correria desenfreada. Os pássaros recolhem ao ninho e nós aos dormitórios; sim, dormitórios ou julgavam ser mais do que isso? Não é mais do que onde se pernoita; não é mais do que um local de paragem limitada no tempo.

O lar, a segurança e o conforto, é onde o coração está. O que acontece quando o coração, sem alternativa, se encontra dividido? Onde fica o lar? Onde se encontra segurança, conforto, paz e felicidade quando o lar está separado por centenas de quilómetros?

A distância e a saudade aniquilam o conceito de lar; torna-se gelado e ventoso como o mais rigoroso Inverno. As temperaturas negativas quebram-nos por dentro desfazendo em mil pedacinhos o coração fragilizado de saudade. E a distância parece aumentar com o passar do tempo.

Hoje disseram-me que a minha casa é aqui, que tenho que aceitar, e viver com isso. Mas não se vive; nunca se vive com meio coração: sobrevive-se. Vai-se tentando sobreviver. Vai-se tentando não morrer. Vai-se vivendo a balões de oxigénio dados pelas videochamadas, telefonemas e trocas de mensagens constantes, para que não se perca o resto do coração que vive fora de nós.

A dor aumenta, a esperança diminui e, quando damos conta, perdemo-nos a meio da distância entre as duas metades de nós. Somos seres incompletos, com a plenitude de uma vida construída, longe do que conhecemos como casa. E as raízes, que nos prendem, não murcham nem secam e precisamos de lá voltar: sempre. Todas as vezes possíveis para juntar as duas metades do coração; para nos reencontrarmos a nós mesmos.

Podem tirar uma beirã das beiras, mas nunca tirarão as beiras da beirã.

Até breve meu ninho, meu aconchego, casa minha.

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