Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Inquietações

Inquietações

04
Dez19

Mais eu

Liliana Rodrigues

mais eu.jpg

 

Pego na caixa e olho-a com desdém. Tiro um e enfio-o goela abaixo com um pouco de água. É difícil de engolir e não é pelo tamanho. O significado é que custa a aceitar, nem com toda a água do mundo se consegue, alguma vez, engolir. Raios me partam se, um dia, não deixo esta merda.

Mais um comprimido da felicidade. Mais um comprimido do bem-estar. Mais um comprimido para me drogar.

Em minutos, volto à vida padronizada e controlada que é o requisito para se sobreviver. Uma vida desinteressante e enfadonha que nos faz andar, numa correria, em círculos de onde não conseguimos sair. Trabalhar para sobreviver. Sobreviver, resistir ou viver acima de? Vive-se, cada vez mais, acima. Acima do que realmente é importante, do que traz felicidade e acima da essência.

Mais um comprimido e cada vez mais longe de mim. Anulo-me para continuar a aguentar.

A droga entranha-se e a dor é adormecida. O meu ser estilhaçado, pela tomada de consciência, é disfarçado através dos químicos. Estou dependente, da minha própria anulação, para continuar a existir.

Um dia, juro, que deixo este monte de bosta que me adormece em mim.

“Tens que ser forte e aguentar”. Não. Não tenho que ser forte e aguentar. Tenho que ser forte e manifestar. Manifestar o que dói, o que incomoda, o que me enerva e o que odeio. Manifestar os sonhos que tenho, o que é importante para mim, o que me dá prazer e felicidade. Manifestar-me sem opressão ou culpa. Manifestar-me livremente e expandir amor.

A cabeça dói, os olhos estão pesados e o cérebro não acompanha o movimento do corpo. Uma sensação extracorpórea atordoa-me e consome a pouca energia que tenho. E tomo mais um, só para acalmar a angústia e o desespero. O corpo revolta-se contra a mente. Fujo.

Fujo sem destino. Corro como uma louca sem rumo certo; isso pouco importa. Dizem que sou maluca, e depois? O que pensam é tão válido como uma lotaria dos anos 90. Na minha pele vivo eu e mais ninguém. Vou desistir.

Vou desistir de tentar ser perfeita a viver numa vida enfadonha. Vou desistir de me tentar acostumar com esta vida vazia. Vou desistir de caminhar ao lado dos demais e vou ser mais, muito mais, eu. 

Finalmente livre.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub