Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Inquietações

Inquietações

16
Dez20

Morre aos poucos

Liliana Rodrigues

Morre, aos poucos, o amor que te tenho. Sempre soube que não era fácil te amar. Sempre soube que, muitas vezes, teria que esquecer-me e colocar-te em primeiro lugar. Sabia que a família e amigos, com o tempo, ficariam penalizados com a nossa relação. Sim, sempre soube de tudo isto e, ainda assim, lutei por ti. O nosso namoro não foi um mar de rosas, mas em ti havia uma promessa. Lutei. Aceitei-te. Casámos.

Quinze anos passaram. Tivemos os nossos altos e baixos, tal como qualquer casal. Houve dias muito felizes e dias menos felizes. Inevitavelmente, ao fim de todos estes anos, comecei a fazer um balanço do nosso amor. Há um lado para onde a balança pende mais.

No fundo eu sabia. Sempre soube. Dei-te muito mais do que alguma vez me deste a mim. Tudo e de retorno recebi muito pouco. Dou por mim a pensar, vezes sem conta, que a nossa relação já não tem pernas para andar. Mas ainda te amo. E odeio.

Odeio-me sobretudo a mim, por tudo o que me tiraste e por não te conseguir deixar. E preciso, sim, preciso de ti. Entranhaste-te em mim de tal maneira que te sinto como a pele. Enraizaste-te em mim que é só em ti que penso. Vivo em ti. Vivo de ti. Asfixio.

Sufocaste-me. Exiges de mim mais do que quero dar, do que posso dar. A minha família sofre ao ver-me assim e sofro por a ver sofrer. E tu? Pouco te importas. Apenas queres que esteja ao teu lado. Na saúde e sobretudo na doença. Todos os dias da minha vida. Até que…

Não quero morrer nas tuas mãos, meu amor. Não quero mais estar dependente de ti. Não quero vestir-te como a uma pele. Não te quero mais. Quero ser livre e feliz, mas não posso. Enrolo-me sobre a minha dor e grito, o mais alto que posso, com a força que ainda não me sugaste. Grito a minha desilusão na sombra do que ainda sou.

Finjo um sorriso para ti. Finjo para que não percebas o quanto me dóis. Finjo a força sacada a ferros do que julgo já nem ser. Continuo contigo por mais algum tempo. Não sei quanto tempo mais vou aguentar, mas continuo ao teu lado como me exiges.

Olho-te nos olhos. Tu sabes. Conheces-me bem. Brincas comigo porque sabes que ainda preciso de ti. Tens a faca e o queijo na mão e estou à tua mercê. Tens o meu corpo, mas jamais terás os meus sonhos. E sonho. Sonho com o dia em que me libertarei de ti. Sonho com o dia em que encontrarei outro amor. Sonho com o dia em que serei feliz.

Sabes, amor, pensei muitas vezes que eras tu quem me definia. Esqueci-me que tinha identidade. Esqueci-me quem era. Agora, vejo que há muito mais em mim do que o que conheces. No fundo sempre fui eu quem teve o poder da escolha. Acho que sabes bem qual é. Vou-te deixar, amor. Verás finalmente quem sempre fui.

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub