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Inquietações

Inquietações

07
Out19

Mudança

Liliana Rodrigues

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Estou a morrer. Tenho frio. Sufoco. O corpo doí-me. Fecho os olhos lentamente. Escuro. O medo toma conta de mim. A dor agrava. O pensamento tolda-se e, tal como a respiração, abranda. Não sei o que pensar nem o que sentir. Uma amálgama de medo e incerteza rasgam-me de dor. Gemo.

Os olhos abrem-se, com muito esforço, observando o espaço à volta. Sozinha. Estou só comigo mesma. Rendo-me à dor. Não mexo nem um músculozinho sequer e controlo a respiração. Aos poucos a dor adormece.

O meu corpo, pesado e dormente, repousa agora inerte sobre a cama. Cerro, com a pouca força que me resta, os olhos e procuro a coragem necessária, submersa na incerteza do futuro (sim, na morte também há futuro). Estou a morrer.

No meu leito de morte, passo a pente fino toda a minha vida até aqui. Tive altos e baixos como toda a gente. A balança está equilibrada. Gostava de que pendesse mais para o lado dos momentos altos. Gostava de ter feito diferente. Analiso cada momento do meu passado demoradamente. Ainda me resta algum tempo.

Se pudesse, o que mudava na minha vida? Se pudesse voltar atrás no tempo que conselho daria a mim própria? Será que sou a pessoa que idealizei, um dia, ser? Como será o futuro? Tantas questões para tão poucas respostas.

O medo, tal como a dor, agiganta-se. Abro um só olho, aquele que as míseras forças permitem. Observo. Tudo igual. Nada mudou. O mundo continua a girar alheio à minha morte. Indiferente à minha dor. Menosprezando o meu medo. E eu? Ninguém se preocupa.

Estou a morrer. Daqui a poucos minutos deixarei esta vida, esta realidade. Assustador. Angustiante. Stressante. A respiração e o coração aceleram. Um nó na garganta forma-se e as pausas entre inspiração e expiração aumentam. Vou morrer. Preciso morrer. Quero morrer.

O mundo lá fora continua igual, mas eu não. Estou diferente. Estou morta. Dentro de mim, uma força imensa surge e começa a crescer rápidamente. Sinto a coragem e o amor a renascerem. Expandem-se. Estou morta e feliz.

É tão óbvio que soa a estúpido. É tão vital que soa a simples. É preciso morrer para se renascer. Escolhi morrer. Morrer apesar da dor de se morrer. Morrer apesar do medo do desconhecido. Morrer apesar da incerteza angustiante do futuro. Morrer para renascer. E eu quero renascer.

Não sei porque não morri antes. Talvez o meu apego ao inútil tivesse me impedido. Talvez o meu conforto no banal me tivesse travado. Talvez a minha visão formatada da vida me tivesse feito recuar. Talvez tudo isso e muito mais, mas decidi arriscar e morrer.

Renasci. Sou a mesma matéria, mas uma pessoa diferente agora. As vivências do passado são lições de vida e experiência. Renasci para brilhar a paz e o amor. Renasci para viver os meus sonhos. Renasci para viver segundo o coração. Renasci para viver de verdade. Amar de verdade. Romper com a superficialidade, futilidade, fugacidade e a aparência.

Renasci e tenho o coração cheio. Há tanto que quero viver. Ainda há tanto pelo que vale a pena viver, lutar e sonhar. É tão simples ser feliz e livre. E é preciso tão pouco para o ser. É só decidir morrer, para esta forma de vida actual, e renascer, para uma nova. Fazer uma mudança. E, se por algum motivo, falhar é só voltar a morrer.

Sou uma fénix.

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