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Inquietações

Inquietações

Residentes na mesma casa


Liliana Rodrigues

08.01.20

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(Imagem retirada do Google)

Chegas a casa e beijas-me com a banalidade de uma acção mecanizada; gelado como um iceberg (que escondes na profundeza do teu ser? que tens submerso e oculto à vista?). Vamos cada um para a sua tarefa de final de dia. Há tanto para fazer.

Vejo-nos pela casa agarrados, um ao outro, como se dependêssemos disso para viver. O nosso amor é louco, o nosso amor é puro, o nosso amor é doentio: a dependência perfeita de ambos os corpos entrelaçados. Amamo-nos outra vez?

- O que é o jantar?
- Não sei. O que te apetece?
- Uma coisa qualquer.

E é isso que nos define agora, uma coisa qualquer: algo indefinido, algo sem identidade, algo assim assim, uma coisa insípida.

Vejo-te a agarrar-me sofregamente para saciar a fome de mim. Agarro-te em desespero para preencher o vácuo de quando não estás. E amamos. E rendemo-nos à evidência da nossa dependência demente da fusão dos corpos. E amar não é só espiritual, é carnal: é animal. Vamos amar-nos selvaticamente.

Onde foi que nos perdemos? Onde foi que nos deixamos de ser? Declaramos amor como daqui à lua e de volta, mas agora a distância que nos separa é daqui a Plutão e de volta. Somos estranhos conviventes na mesma casa, residentes debaixo do mesmo tecto, e partilhamos tudo menos a vida. Amanhã não contes comigo para jantar.

Assisto à nossa primeiro discussão. Foi tão bom, lembras-te? Gritámos como dois cães e amámo-nos como uns selvagens. Adoro quando as zangas terminam com os corpos despidos, suados e cansados de tanto amar. E se nos amassemos outra vez?

Finges estar interessado no meu dia-a-dia; conto-o, mas não me ouves. Fazes-me a mesma pergunta vezes sem conta e tenho monólogos gigantescos contigo. Estamos lado a lado, mas em mundos separados. Nunca me tinha apercebido de como estamos tão desligados de nós mesmos, tão frios e insípidos como um cubo de gelo. Oficializamos a situação?

Apercebo-me agora de como é tão fácil arrastarmo-nos até aqui como aceitar a separação. Fazemos o quê? Desistimos ou lutamos. Conformamo-nos ou agimos? Sinceramente, não sei o que fazer. Tens tempo na tua agenda para mim? Podemos ver com as minhas disponibilidades.

Conversamos tão civilizadamente que até mete nervos. Vamos mesmo ficar neste marasmo? Reage, pá. És o quê afinal? É mesmo isto que queres? Mas que merda de homem és tu? Recuso-me decidir sem uma discussão acesa como antes. Se é para fazer que seja em condições, seja qual for o desfecho.

A nossa respiração torna-se ofegante, os corpos dançam frenéticamente suados de tanto amar. E entrego-me à loucura de te amar sem limites, sem vírgulas, sem pudor, com tudo a que temos direito.

- Dorme bem, amor.
- Até amanhã, minha querida.

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