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Inquietações

Inquietações

22
Jun20

Depressão

Liliana Rodrigues

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(imagem retirada do Google)

 

Acordo para mais um dia; mais um entre tantos outros, todos iguais entre si. Meto o pé fora da cama e depois o outro, permaneço sentada esperando que as forças voltem. Ergo-me. O meu corpo pesa toneladas e sinto dor nas articulações. Começo a caminhar tentando endireitar o corpo fechado sobre si.
Olho-me ao espelho e não sei a quem pertence aquele reflexo. Finjo um sorriso. Bolas, que raio de sorriso. Tenho que me esforçar mais, ainda mais, ou não convenço ninguém. Vamos lá. Isso. Está melhor. Não está perfeito, mas é o melhor que se arranja. Escondo-me atrás dos cremes, dos pós, das sobras, dos correctores e do baton que saem da minha caixinha da saúde. Observo o reflexo do espelho e nem me vou dar ao trabalho de, por baixo de tanta maquilhagem, tentar encontrar um resticio de mim. Saio.
- Dormiste mal hoje? Estás cá com uma cara.
- Sim, dormi mal.
Sento-me em frente ao computador, atrás de uma pilha de dossiês e papeis com recados, e lanço-me ao trabalho. Dou o melhor de mim. Sinto que estou a fazer um esforço sobre-humano para me manter concentrada. Trabalho mais lentamente do que gostaria e isso irrita-me. Sinto-me desiludida e insatisfeita com o meu desempenho. Mergulho de cabeça no trabalho.
Mas que merda de burrice foi essa? Pensas mesmo que consegues resolver esse problema sozinha? Olha lá, quem é que pensas que és para decidires sem consultar ninguém? Achas mesmo que és boa no que fazes? Deves pensar que não há quem faça melhor o teu trabalho. Aposto que se te fosses embora ninguém se lembraria de ti. Não vales nada. Ninguém quer saber de ti. A cabeça começa a doer e a andar à roda com tantos pensamentos. As forças abandonam-me e entro em modo de poupança de energia.
- Fizeste um trabalho espetacular, mas não pareces muito feliz. Está tudo bem?
- Sim, estou só um pouco cansada. Este projecto consumiu-me muita energia.
- Acredito que sim. Ficou incrível.
De volta ao trabalho, o limiar de paciência cai a pique e começo a não conseguir controlar a frustração que me invade. Dou duas ou três respostas tortas; quatro ou cinco, já não sei precisar. Já não consigo controlar nada e só quero que esta dor passe. Dói-me a cabeça. Dói-me o corpo. Dói-me o ser.
- Que se passa contigo? Tu não eras assim.
Não era? Ou será que sempre fui? Serei eu mesma ou apenas pedaços do que querem que seja? Mas afinal quem sou eu?
- Estou um pouco em baixo. Desculpa.
- Passa-se alguma coisa?
- Sinto-me desanimada com a vida. Parece que corro sem nunca chegar a lado nenhum.
- Só isso? Isso não é nada, há pessoas com problemas sérios e bem pior do que tu. Uns dias de férias e já não sentes isso.
Sim, realmente é capaz de ter razão. Não tenho problemas suficientemente sérios para me queixar. Há pessoas em situações piores do que a minha. Mas devo ficar feliz ou ainda mais triste? A dor que sinto é um grito que ninguém pode ouvir. Imaginar pessoas a sofrer mais do que eu ainda me faz sofrer mais. Abano a cabeça como a aceitar e volto para dentro de mim. Não posso mostrar o quanto sofro. Não posso dizer o quanto me dói viver. Não devo contar o quanto sou infeliz. Não preciso que finjam se importarem ou compreender.
A verdade é que ninguém quer saber da minha dor, dos meus problemas, da minha tristeza. Vivo encaixada em grupos aos quais não pertenço. Rodeada de pessoas estando sempre sozinha. Não posso mostrar fragilidades. Não posso mostrar infelicidade. Não posso mostrar-me. Só quero que acabe esta merda de vida. Ou ela acaba comigo ou eu acabo com ela.


A depressão não é só tristeza. A depressão é sofrimento sério. A depressão é uma doença que não deve ser desprezada nem marginalizada. Ninguém sabe o que é viver dentro de uma mente em sofrimento asfixiando na sua própria pele. Até porque não é uma questão de força ou coragem ou força de vontade. Já dizia o velho ditado: “pimenta no cu dos outros é refresco”.

 

23
Abr20

Reflexo no vidro

Liliana Rodrigues

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(imagem retirada do Google)

Olho a imagem que o pedaço de vidro me reflete. Não consigo compreender o que está diante de mim. Como é possível tanta dor e tanta angustia? Como? Como é possível existir tanta gente que sofre? Como é possível alguém aguentar? Como é que se sobrevive ao que se vive? Mas não há Deus justo neste mundo?
Fecho os olhos e sacudo a cabeça, como se afastasse estes pensamentos, mas é em vão. Sinto um sabor amargo, a boca fica seca e procuro um pouco de água para beber. Nem uma única gota de água disponível. Engulo em seco a minha raiva; a minha frustração.
O nó na garganta incomoda e dificulta a respiração. Levo a mão ao pescoço como que a tentar aliviar a obstrução que se intensifica. Tento controlar a respiração antes que desmaie. Olho de novo para o vidro. Observo.
Vejo a imagem de três crianças a descer a rua. Vêm a conversar entre si, duas delas abrandam o passo e, quando a terceira fica à sua frente, puxam a mochila. A criança desequilibra-se e cai no chão. As duas crianças riem e riem e não a ajudam a levantar. A imagem desvanece.
A sala está cheia de pessoas que aguardam a reunião. Duas delas cochicham entre si. Olham com desdém para alguém no lugar da frente. O director chega e cumprimenta essa pessoa. As outras duas tecem comentários injuriosos e invejosos, espalhando boatos a quem está à sua volta. A imagem é sucedida por outra.
Alguém trabalha afincadamente num projecto extremamente importante para a recuperação da empresa. Trabalha tanto que não tem tempo para a família nem para si próprio. É um projecto inovador, ambicioso e que irá salvar a empresa. Pede a um colega que dê uma vista de olhos antes de o apresentar à direcção. Três dias depois o colega é promovido com a apresentação do seu projecto. A imagem é substituída pelo meu reflexo.
O que se faz quando se é confrontado com a realidade? Com a triste realidade humana? Qual é o gosto? A que sabe?
Nascemos seres de luz e com o tempo vamos deixando de brilhar. Somos seres livres desde a nascença e com o tempo tornamo-nos escravos das nossas escolhas, das nossas atitudes, de nós mesmos. Nascemos a saber amar e com o tempo desaprendemos.
Como é possível tanta dor e angustia? Como é possível mudarmos tanto a nossa natureza? Como é possível procurarmos a culpa fora de nós, quando ela está dentro? Como é possível sermos tão cegos?
A imagem que vejo é mais do que o meu reflexo. É a resposta mais difícil às minhas perguntas mais fáceis.

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